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sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Alimentos

  1. Alimentos transgênicos são seguros, saudáveis e essenciais se quisermos atingir padrões de vida decentes para a crescente população mundial। A moralização fora de propósito em torno deles no Ocidente está custando milhões de vidas nos países pobres।Há sete anos, a revista "Time" apresentou o biólogo suíço Ingo Potrykus em sua capa। Como principal criador do arroz geneticamente modificado -ou "arroz dourado"- ele foi saudado como potencialmente um dos maiores benfeitores da humanidade. O arroz dourado seria o início de uma nova revolução verde para melhorar as vidas de milhões das pessoas mais pobres do mundo. Ele ajudaria a corrigir a deficiência de vitamina A, a causa de entre 1 milhão e 2 milhões de mortes por ano, e poderia salvar até 500 mil crianças por ano da cegueira. Era a nau capitânia da biotecnologia vegetal.Sete anos depois, a previsão mais otimista é de que serão necessários mais cinco ou seis anos para que o arroz dourado possa ser cultivado comercialmente. A concretização do sonho de Potrykus continua se distanciando.O que deu errado? As promessas eram irreais ou a tecnologia dos transgênicos, como alegam seus oponentes, é falha -devido aos possíveis danos à segurança de seres humanos ou do meio ambiente, ou por ser inadequada para atender as necessidades dos agricultores pobres no mundo em desenvolvimento?A discussão pública de alimentos transgênicos nos meios de comunicação britânicos, e por toda a Europa, reflete uma suspeita persistente em relação aos alimentos transgênicos. Os supermercados exibem avisos de que seus produtos são "livres de transgênicos". As vendas de alimentos orgânicos, promovidos como uma alternativa natural aos produtos da agricultura científica moderna, estão crescendo cerca de 20% ao ano. O público é levado a acreditar que a tecnologia transgênica não é apenas insegura, mas prejudicial ao meio ambiente, e que atende apenas ao lucro das grandes empresas agrícolas. Raramente a percepção pública esteve mais fora de sintonia com os fatos.Na verdade, a natureza da tecnologia de modificação genética dificilmente seria mais perigosa do que a agricultura convencional. Ao longo da toda a história, agricultores buscaram melhorar sua produtividade cruzando plantas com características desejáveis. Mas o cruzamento é uma loteria e suas conseqüências não podem ser facilmente previstas. Pequenas mudanças genéticas que são desejáveis podem ser acompanhadas por outras que são indesejáveis. Podem ser necessárias gerações de cruzamentos para eliminação das características indesejáveis. O processo é, portanto, não apenas imprevisível, mas lento e caro, e pode ser ainda mais arriscado.Um dos métodos-padrão mais eficazes de reprodução para obtenção de melhores plantas cultiváveis é bombardear as sementes e plantas com raios gama para alterar seu DNA, causando mutações, sendo que algumas podem ser selecionadas por possuírem características desejadas. (Por acaso, os agricultores orgânicos, em seu desejo de evitar produtos químicos artificiais, são ainda mais dependentes do que os agricultores convencionais de variedades de plantas geradas por irradiação.)A irradiação altera tanto a estrutura dos cromossomos quanto a seqüência do genoma de forma aleatória. Além disso, não há exigência legal de testar tais produtos irradiados seja pelos efeitos à saúde ou pelo que possam causar ao meio ambiente. Em comparação, a modificação genética em laboratório introduz um gene ou genes bem caracterizados em um genótipo estabelecido sem grande perturbação. O que tal modificação faz é o mesmo que o cruzamento de plantas sempre fez, mas de forma mais rápida e precisa. Os oponentes freqüentemente argumentam que a tecnologia de engenharia genética é diferente por poder transferir genes entre espécies. Mas novamente, isto não é novo, já que ao longo da evolução genes foram transferidos entre espécies naturalmente. Este é o motivo para a existência de tamanha diversidade de vida vegetal.Além disso, aqueles que são contrários à modificação genética na agricultura freqüentemente abraçam a tecnologia na medicina. A insulina humana usada no tratamento da diabete, por exemplo, é modificada geneticamente: o gene humano responsável pela insulina foi transferido para bactérias e levedo, um processo que envolve o cruzamento da barreira entre espécies. Segundo que raciocínio a tecnologia pode ser segura e ética quando salva vidas em tratamento médico, mas não quando usada para tornar plantas resistentes a pragas visando salvar pessoas da fome?A história do arroz dourado de Potrykus sugere uma explicação. O desenvolvimento do produto em si foi um grande feito científico. Um gene de bactéria somado a dois genes de narciso foram inseridos no arroz para fazê-lo sintetizar o micronutriente "betacaroteno", que quando ingerido é convertido em vitamina A. Este processo levou 10 anos. Muitos outros anos foram gastos, com a ajuda da Syngenta e outras empresas de biotecnologia, na solução dos problemas de patente para permitir que o arroz dourado pudesse ser disponibilizado para pequenos agricultores sem pagamento de royalties. Então teve início a luta para obtenção de aprovação regulatória.Primeiro, apesar de ter sido aceito até mesmo pelos contrários à tecnologia que a presença do betacaroteno no grão de arroz não apresenta nenhum risco possível ao meio ambiente, nenhum campo de teste de pequena escala seria permitido. Assim, todo o arroz dourado deveria ser plantado em estufas -um processo que exige três anos. Cada planta deveria ser comprovada como sendo produto de uma transferência genética de seu DNA em proporções iguais. Então todas as proteínas deveriam ser extraídas e decompostas, caracterizadas bioquimicamente e sua função confirmada -análises que exigem pelo menos dois anos de trabalho intensivo em laboratório bem equipado.Em seguida, experiências de alimentação com roedores seriam exigidas, apesar da maioria das pessoas já ter comido alegremente estes genes -e as proteínas pelas quais são responsáveis- de outras fontes ao longo de suas vidas, e apesar das proteínas produzidas pelos genes do narciso não terem relação a qualquer toxina ou alérgeno. Nenhum risco hipotético por menor que fosse deveria permanecer não testado.Por que uma tecnologia com tanto a contribuir é impedida por regulamentações que não fazem sentido? Parte da culpa está no grande agronegócio. Ele inicialmente apreciou a regulamentação elaborada para desencorajar a concorrência de pequenas empresas incapazes de arcar com os custos. De fato, eles resistiram com sucesso a todas as tentativas dos conselheiros no governo Reagan de regular cada nova planta transgênica simplesmente como novo produto, em vez de pelo processo pelo qual foi derivada -uma abordagem que trataria as culturas transgênicas e convencionais de forma semelhante e faria mais sentido científico.Apesar da regulamentação rígida ter sido apoiada por alguns defensores dos transgênicos, que acreditavam que ela tranqüilizaria o público, ela teve o feito oposto. Se os governos parecem achar que é necessária extrema cautela, o público concluirá que a tecnologia deve ser perigosa.Mas a principal força por trás da regulação excessiva dos transgênicos é o culto da "volta à natureza", que também inspirou a propaganda contra a biotecnologia agrícola como um todo. Este culto tem muitas manifestações. Uma é a popularidade da agricultura orgânica, que se baseia no falso princípio de que produtos químicos artificiais são ruins e produtos químicos naturais são bons.Outra é a crescente moda por medicina alternativa, não comprovada. Os oponentes dogmáticos dos transgênicos na Europa acreditam que a interferência na composição genética das plantas é basicamente uma questão moral. Ela deve ser condenada como parte da tentativa pecaminosa da humanidade de controlar a natureza, que contribuiu para o aquecimento global, epidemias de câncer e todas as pragas da vida moderna.Apesar desta corrente de sentimento anticiência, há motivo para esperança. Neste ano, o então secretário britânico do meio ambiente, David Miliband, anunciou que não há evidência de que alimento orgânico é mais nutritivo do que alimento cultivado de forma convencional. Em princípio, o governo britânico se declarou pronto para autorizar o cultivo de transgênicos e apoiou sua promoção na Europa.Além disso, há sinais significativos de mudança em vários países europeus. A Espanha cultiva com sucesso milho transgênico há alguns anos. Na França, o número de hectares dedicados ao plantio de transgênicos aumentou de 500 para 50 mil em três anos. Mas o mais importante é a rápida disseminação de transgênicos na Índia e na China. Os chineses já estão à frente no teste de novas linhagens de arroz transgênico que poderão beneficiar 250 milhões de agricultores. A Índia não está muito atrás e defende um regime regulatório brando.Há pouca dúvida de que com o tempo os transgênicos serão aceitos mundialmente, mesmo na Europa. Mas ao adiar o cultivo, os lobbies antitransgênicos foram responsáveis por um custo pesado. Sua oposição minou o agronegócio na Europa e empurrou para o exterior grande parte da pesquisa de biotecnologia vegetal. A regulação excessiva pode tornar os custos da tecnologia mais altos do que o necessário. Acima de tudo, o atraso causou a perda desnecessária de milhões de vidas no mundo em desenvolvimento. Estes lobbies e seus amigos no movimento orgânico têm muito pelo que responder.*Dick Taverne é autor de "The March of Unreason: Science, Democracy and the New Fundamentalism".
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