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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Lares Celestiais—Famílias Eternas

Lares Celestiais—Famílias Eternas

PRESIDENTE THOMAS S. MONSON



Edificar um Lar Eterno

É com muita humildade que represento a Primeira Presidência como o último orador

desta reunião. Fomos inspirados e edificados pelas palavras do Élder Bednar, do Élder

Perry e da irmã Parkin. Nossos pensamentos se centralizaram no lar e na família ao

sermos relembrados que “o lar é a base de uma vida digna, e nenhuma outra coisa

pode substituí-lo nem cumprir suas funções essenciais”. 1

Um lar é muito mais do que uma casa construída com madeira, tijolos ou pedras. Um

lar é feito de amor, sacrifício e respeito. Somos responsáveis pelo lar que construímos.

Precisamos edificar com sabedoria, porque a eternidade não é uma viagem curta.

Haverá calmarias e ventos, sol e trevas, alegria e tristezas. Mas se realmente

tentarmos, nosso lar pode ser um pedaço do céu aqui na Terra. As coisas que

pensamos, as ações que praticamos, a vida que levamos, não apenas influenciam o

sucesso de nossa jornada terrena, como também assinalam o caminho para nossas

metas eternas.

Algumas famílias da Igreja são compostas de mãe, pai e filhos, todos em casa, ao

passo que outras testemunharam a triste partida de um, depois outro e mais outro de

seus membros. Às vezes, uma única pessoa compõe uma família. Seja qual for sua

composição, a família tem continuidade — porque as famílias podem ser eternas.

Podemos aprender com o Arquiteto Mestre — sim, o Senhor. Ele nos ensinou como

precisamos edificar. Ele declarou: “[Toda] casa dividida contra si mesma não

subsistirá” (Mateus 12:25). Mais tarde, admoestou: “Eis que minha casa é uma casa

de ordem (. . .) e não uma casa de confusão” (D&C 132:8).

Em uma revelação dada por intermédio do Profeta Joseph Smith em Kirtland, Ohio,

em 27 de dezembro de 1832, o Mestre aconselhou: “Organizai-vos; preparai todas as

coisas necessárias e estabelecei uma casa, sim, uma casa de oração, uma casa de

jejum, uma casa de fé, uma casa de aprendizado, uma casa de glória, uma casa de

ordem, uma casa de Deus” (D&C 88:119; ver também 109:8).

Onde poderíamos encontrar uma planta mais adequada com a qual Ele pudesse

edificar sábia e devidamente? Essa casa respeitaria o código de construção descrito

em Mateus, sim, uma casa construída “sobre a rocha” (Mateus 7:24, 25; ver também

Lucas 6:48; 3 Néfi 14:24, 25), uma casa capaz de suportar as chuvas da adversidade,

as enchentes da oposição e os ventos da dúvida, que estão sempre presentes em nosso

mundo desafiador e em constante mudança.

Alguns poderiam perguntar: “Mas essa revelação foi dada para orientar a construção

de um templo. Será que ela é relevante hoje em dia?”

Eu responderia: “Acaso não declarou o Apóstolo Paulo: ‘Não sabeis vós que sois o

templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?’” (I Coríntios 3:16).

Deixem que o Senhor seja o empreiteiro geral de nosso projeto de construção. Depois,

todos podemos ser mestres-de- obras, responsáveis por partes vitais do projeto inteiro.

Todos então seremos construtores. Além de edificar o nosso próprio lar, também

temos a responsabilidade de ajudar a edificar o reino de Deus aqui na Terra, servindo

fiel e eficazmente em nossos chamados na Igreja. Gostaria de prover-lhes diretrizes

divinas, lições de vida e pontos a ponderar ao começarmos a construir.

Ajoelhem-se para Orar

“Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio

entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas

veredas” (Provérbios 3:5–6). Assim falou o sábio Salomão, filho de Davi, rei de

Israel.

Neste continente americano, Jacó, o irmão de Néfi, declarou: “Confiai em Deus com a

mente firme e orai a ele com grande fé” (Jacó 3:1).

Esse conselho divinamente inspirado chega até nós hoje tão claro quanto água

cristalina a uma Terra ressecada. Vivemos numa época complicada.

Há bem poucas gerações atrás, ninguém poderia imaginar o mundo em que vivemos

hoje e os problemas que nele existem. Estamos cercados pela imoralidade,

pornografia, violência, drogas e uma infinidade de outros males que afligem a

sociedade moderna. Temos o desafio, sim, a responsabilidade de não apenas manter-

nos “[imaculados]” (Tiago 1:27), mas também de guiar nossos filhos e outras pessoas

sob nossa responsabilidade com segurança através dos mares tempestuosos do pecado

que nos cercam, para que possamos voltar a viver um dia com nosso Pai Celestial.

A educação de nossa própria família exige nossa presença, nosso tempo e o máximo

de nosso empenho. Para sermos eficazes em nosso ensino, precisamos ser vigorosos

em nosso exemplo para os membros de nossa família estar disponíveis para passar

algum tempo com cada um deles e também para aconselhar e orientar.

Freqüentemente nos sentimos sobrecarregados com a tarefa que temos diante de nós.

Contudo, sempre contamos com ajuda. Ele que conhece cada um de Seus filhos

responderá nossa oração fervorosa e sincera, se buscarmos ajuda para guiá-los. Essa

oração resolverá mais problemas, aliviará mais sofrimentos, evitará mais

transgressões e proporcionará mais paz e alegria à alma humana do que qualquer

outra coisa.

Além de precisarmos dessa orientação para nossa própria família, fomos chamados a

cargos em que temos responsabilidade por outros: como bispo ou conselheiro, como

líder de um quórum do sacerdócio ou de uma organização auxiliar. Líder, você tem a

oportunidade de exercer uma grande influência na vida de outras pessoas. Pode haver

aqueles que têm familiares menos ativos ou não-membros; alguns podem ter-se

afastado dos pais, não dando atenção a suas súplicas e conselhos. Podemos muito bem

ser o instrumento nas mãos do Senhor para fazer algo importante na vida de alguém

em tal situação. Sem a orientação de nosso Pai Celestial, porém, não podemos fazer

tudo a que fomos chamados a fazer. Essa ajuda vem por meio da oração.

Foi perguntado a um famoso juiz americano o que nós, como cidadãos dos países do

mundo, poderíamos fazer para reduzir o crime e a desobediência à lei e trazer paz e

alegria à nossa vida e ao nosso país. Ele respondeu, pensativo: “Eu sugeriria uma

volta ao antigo costume de orar em família”.

Como povo, quão gratos somos pelo fato de a oração familiar não ser um costume

antiquado entre nós. Há um significado real neste conhecido ditado: “A família que

ora unida, permanece unida”.

O próprio Senhor ordenou que tivéssemos oração familiar, ao dizer: “Orai ao Pai no

seio de vossa família, sempre em meu nome, a fim de que vossas mulheres e vossos

filhos sejam abençoados” (3 Néfi 18:21).

Como pais, professores e líderes em qualquer cargo, não podemos nos dar ao luxo de

tentar realizar essa jornada potencialmente perigosa pela mortalidade, sem o auxílio

celeste para ajudar-nos na orientação daqueles que estão sob nossa responsabilidade.

Ao oferecermos a Deus nossas orações familiares e pessoais, façamos isso com fé e

confiança Nele. Ajoelhem-se para orar.

Aceitem a Tarefa de Servir

Tomemos, como exemplo, a vida do Senhor. Tal como um brilhante facho de luz de

virtude foi a vida de Jesus, ao ministrar entre os homens. Ele deu força aos membros

do inválido, visão aos olhos dos cegos, audição aos ouvidos dos surdos e vida ao

corpo dos mortos.

Suas parábolas pregavam Seu poder. Com a parábola do bom samaritano Ele ensinou:

“Ama teu semelhante” (ver Lucas 10:30–35). Por meio de Sua bondade para com a

mulher apanhada em adultério, Ele ensinou a compreensão compassiva (ver João

8:3–11). Em Sua parábola dos talentos, Ele nos ensinou a progredir e a esforçar-nos

para alcançar a perfeição (ver Mateus 25:14–30). Ele bem poderia estar nos

preparando para nosso papel na edificação de uma família eterna.

Cada um de nós — seja um líder do sacerdócio ou de uma organização auxiliar — é

responsável por seu chamado sagrado. Fomos designados para o trabalho ao qual

fomos chamados. Em Doutrina e Convênios 107:99 o Senhor disse: “Portanto agora

todo homem aprenda seu dever e a agir no ofício para o qual for designado com toda

diligência”. Ao ajudarmos a abençoar e fortalecer os que estão sob nossa

responsabilidade em nossos chamados na Igreja, estamos de fato, abençoando e

fortalecendo sua família. Assim, o serviço que realizamos em nossa família e em

nossos chamados na Igreja pode ter conseqüências eternas.

Há muitos anos, como bispo em uma ala grande e heterogênea, de mais de mil

membros, localizada no centro de Salt Lake City, enfrentei inúmeros desafios.

Certa tarde de domingo, recebi o telefonema do proprietário de uma drogaria que

ficava dentro dos limites de nossa ala. Ele disse que naquela manhã, um rapaz tinha

ido até sua loja e comprado um sorvete. Ele pagara a compra com dinheiro que havia

tirado de um envelope e depois, quando saiu, esqueceu de levar o envelope. Quando o

proprietário teve a chance de examiná-lo, descobriu que era um envelope de oferta de

jejum com o nome e o telefone de nossa ala impresso nele. Ao descrever-me o menino

que estivera em sua loja, imediatamente identifiquei quem era: um jovem diácono de

nossa ala que fazia parte de uma família menos ativa.

Minha primeira reação foi ficar chocado e desapontado ao pensar que um de nossos

diáconos havia coletado dinheiro de oferta de jejum para ajudar os necessitados e

tinha ido a uma loja no domingo para comprar guloseimas com /’esse dinheiro. Decidi

visitar aquele menino naquela tarde para ensiná-lo a respeito dos fundos sagrados da

Igreja e ‘/de seu dever como diácono de coletar e proteger esse dinheiro.

Ao dirigir-me para sua casa, fiz uma oração silenciosa pedindo orientação sobre como

abordar a situação. Cheguei e bati na porta. A mãe do menino abriu a porta e me

convidou para entrar na sala de estar. Embora a sala estivesse mal iluminada, pude ver

que era pequena e pobre. Os poucos móveis que ali havia estavam bem estragados. A

própria mãe parecia muito cansada.

Minha indignação pelos atos do filho naquela manhã desapareceu de meus

pensamentos ao me dar conta que ali estava uma família realmente necessitada. Senti-

me inspirado a perguntar à mãe se havia comida na casa. Com lágrimas nos olhos, ela

admitiu que não havia nada. Disse-me que o marido estava desempregado havia

algum tempo e que eles estavam precisando desesperadamente não apenas de comida,

mas também de dinheiro para pagar o aluguel para que não fossem despejados

daquela casa tão pequena.

Não mencionei o assunto das doações de oferta de jejum, pois me dei conta de que o

menino provavelmente estava desesperadamente faminto quando parou na farmácia.

Em vez disso, cuidei imediatamente para que a família fosse ajudada, para que

tivessem alimento para comer e um teto sobre a cabeça. Além disso, com a ajuda dos

líderes do sacerdócio da ala, conseguimos arranjar emprego para o marido para que

ele pudesse prover o sustento da família no futuro.

Como líderes do sacerdócio e das auxiliares, temos o direito de receber a ajuda do

Senhor ao magnificarmos nossos chamados e cumprirmos nossas responsabilidades.

Busquem a ajuda Dele e, quando a inspiração chegar, sigam essa inspiração para

saberem aonde ir, quem visitar, o que dizer e como dizê-lo. Podemos ter uma idéia e

pensar nela constantemente, mas somente quando a colocamos em prática, é que

abençoamos vidas humanas.

Sejamos verdadeiros pastores dos que estão sob nossa responsabilidade. John Milton

escreveu este poema, “Lycidas”: “As ovelhas famintas erguem os olhos e não são

alimentadas” (linha 125). O próprio Senhor disse ao profeta Ezequiel: “Ai dos

pastores de Israel que (...) não [apascentam] as ovelhas” (Ezequiel 34:2–3).

Temos a responsabilidade de cuidar do rebanho, das preciosas ovelhas, dos ternos

carneiros que estão em toda parte — em casa em nossa própria família, nas casas de

nossos parentes e esperando por nós em nossos chamados na Igreja. Jesus é nosso

exemplo maior. Ele disse: “Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas” (João

10:14). Temos a responsabilidade de ser pastores. Que cada um de nós aceite a tarefa

de servir.

Estendam a Mão para Resgatar

Em nossa jornada pela trilha da vida, haverá vítimas. Algumas saem da estrada que

conduz à vida eterna, para descobrir que o atalho escolhido conduz a uma rua sem

saída. A indiferença, a negligência, o egoísmo e o pecado, todos trazem sérias

conseqüências em termos de vidas humanas. Há aqueles que, por motivo inexplicado,

seguem por um caminho diverso, para mais tarde descobrirem que seguiram o

caminho da dor e do sofrimento.

Em 1995, a Primeira Presidência, pensando naqueles que se perderam do rebanho de

Cristo, publicou uma declaração especial chamada “Um Convite para Voltar”. A

mensagem continha este apelo:

“Para você que por qualquer motivo estiver fora do convívio da Igreja, dizemos:

Volte. Convidamos você a retornar e partilhar da felicidade que conheceu. Você

encontrará muitos com os braços abertos para recebê-lo, ajudá-lo e dar-lhe consolo.

A Igreja precisa de sua força, amor, lealdade e devoção. Há um curso traçado e seguro

pelo qual uma pessoa pode voltar a ter as bênçãos plenas de ser membro da Igreja, e

estamos prontos para receber todos os que desejarem fazê-lo.”

Talvez uma cena freqüentemente repetida vá ajudá-los a compreender melhor suas

oportunidades pessoais de estender a mão para resgatar. Vejamos uma família que

tem um filho chamado Jack. Durante toda a juventude de Jack, ele e seu pai brigaram

muito. Certo dia, quando estava com 17 anos de idade, eles tiveram uma briga

particularmente feia. Jack disse ao pai: “Essa foi a gota d’água. Vou sair de casa para

nunca mais voltar!” Ele foi até o seu quarto e fez uma mala. A mãe implorou que ele

ficasse, mas ele estava zangado demais para ouvir. Deixou-a chorando junto à porta.

Saindo para o quintal, ele estava para atravessar o portão, quando ouviu o pai chamá-

lo: “Jack, sei que grande parte da culpa por você sair de casa é minha. Eu realmente

sinto muito por isso. Quero que saiba que quando quiser voltar, você será sempre

bem-vindo. E eu tentarei ser um pai melhor para você. Quero que saiba que eu amo

você e sempre o amarei”.

Jack não disse nada, mas foi para a estação rodoviária e comprou uma passagem para

um lugar distante. Enquanto estava sentado no ônibus vendo os quilômetros passarem,

seus pensamentos se voltaram para as palavras do pai. Ele começou a se dar conta de

quanta coragem e quanto amor foram exigidos do pai para que ele dissesse aquilo. O

pai tinha pedido perdão. Tinha-o convidado a voltar, e suas últimas palavras ficaram

soando no ar quente de verão: “Eu amo você”.

Jack sabia que o próximo passo deveria ser seu. Deu-se conta de que a única maneira

de ter paz consigo mesmo era mostrar ao pai o mesmo tipo de maturidade, bondade e

amor que o pai mostrara para com ele. Jack desceu do ônibus. Comprou uma

passagem de volta e começou a viagem de volta para casa.

Chegou pouco depois da meia-noite, entrou na casa e acendeu a luz. Ali na cadeira de

balanço estava seu pai, com a cabeça baixa. Quando ergueu o rosto e viu Jack, ele

ergueu-se da cadeira. Os dois correram um para os braços do outro. Jack disse mais

tarde: “Aqueles últimos anos que fiquei em casa estiveram entre os mais felizes da

minha vida”.

Ali estava um pai que, suprimindo a paixão e dominando o orgulho, estendeu a mão

para resgatar seu filho, antes que ele se tornasse parte daquele imenso “batalhão

perdido”, que resulta de famílias separadas e lares desfeitos. O amor é o grande

remédio, o bálsamo que cura; o amor tão freqüentemente sentido, tão raramente

expresso.

Do monte Sinai ressoa em nossos ouvidos: “Honra teu pai e tua mãe” (Êxodo 20:12).

E mais tarde, daquele mesmo Deus, veio o mandamento: “Juntos vivereis em amor”

(D&C 42:45).

Sigam a Planta do Senhor

Ajoelhem-se para orar. Aceitem a tarefa de servir. Estendam a mão para resgatar.

Cada uma dessas coisas é uma página essencial na planta de Deus para fazer da casa

um lar, e do lar, um pedaço do céu.

O equilíbrio é a chave para nós em nossas sagradas e solenes responsabilidades em

nosso próprio lar e em nossos chamados na Igreja. Precisamos usar de sabedoria,

inspiração e bom senso ao cuidarmos de nossa família e cumprirmos nossos chamados

na Igreja, pois cada uma dessas coisas é de fundamental importância. Não podemos

negligenciar nossa família; não podemos negligenciar nossos chamados na Igreja.

Edifiquemos com aptidão, não tomemos atalhos e sigamos Sua planta. Então, o

Senhor, nosso inspetor de construção, poderá dizer-nos, como disse quando apareceu

a Salomão, um construtor de outra época: “Santifiquei a casa que edificaste, a fim de

pôr ali o meu nome para sempre; e os meus olhos e o meu coração estarão ali todos os

dias” (I Reis 9:3). Teremos então um lar celestial e uma família eterna e seremos

capazes de ajudar, fortalecer e abençoar outras famílias também.

Oro com muita humildade e sinceridade para que essa bênção seja concedida a cada

um de nós. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Nota

1. Carta da Primeira Presidência, de 11 de fevereiro de 1999; ver A Liahona,

dezembro de 1999, p.1.

sábado, 17 de junho de 2017

A Doutrina

Élder Henry B. Eyring
Quórum dos Doze Apóstolos

Podemos ensinar até mesmo uma criança a entender a doutrina de Jesus Cristo. Portanto, com a ajuda de Deus é possível ensinar a doutrina de salvação com simplicidade.

Alma foi o líder de um povo que enfrentou a destruição infligida por inimigos terríveis. Diante do perigo, teve de escolher, pois não podia fazer tudo. Ele poderia ter construído fortalezas, criado armamentos ou treinado exércitos. No entanto, sua única esperança de vitória era receber o auxílio de Deus, e sabia que para isso, o povo teria que se arrepender. Então, decidiu tentar uma coisa primeiro:
Sempre houve guerra entre a luz e as trevas, entre o bem e o mal, mesmo antes da criação do mundo. A batalha entre o bem e o mal continua, e parece que o número de baixas é crescente. Todos nós temos membros da família a quem amamos e que estão sendo atormentados pelas forças do destruidor, que deseja que todos os filhos de Deus se tornem miseráveis. Muitos de nós já passaram noites em claro. Existem forças invisíveis do bem e do mal que envolvem as pessoas que estão em perigo, e tentamos fazer com que as forças do bem aumentem ao máximo. Nós as amamos. Demos o melhor exemplo que podíamos. Oramos suplicando por elas. Há muito tempo, um sábio profeta deu-nos um conselho a respeito de outra força que, às vezes, subestimamos e por isso utilizamos muito pouco.

"Ora, como a pregação da palavra exercia uma grande influência sobre o povo, levando-o a praticar o que era justo -- sim, surtia um efeito mais poderoso sobre a mente do povo do que a espada ou qualquer outra coisa que lhe houvesse acontecido -- Alma, portanto, pensou que seria aconselhável pôr à prova a virtude da palavra de Deus." (Alma 31:5)
A palavra de Deus é a doutrina ensinada por Jesus Cristo e por Seus profetas. Alma sabia que as palavras da doutrina tinham grande poder. Podem abrir a mente das pessoas para que vejam as coisas espirituais, invisíveis aos olhos naturais. Abrem também o coração para o amor de Deus e para o amor à verdade. O Salvador utilizou essas duas fontes de poder, que são abrir a mente e o coração, na seção 18 de Doutrina e Convênios, ao ensinar a Sua doutrina a quem escolhera para ser missionário. À medida que eu falar, pensem nos rapazes de sua família que estão agora hesitando em se preparar para a missão. Foi assim que o Mestre ensinou dois de Seus servos, e é uma maneira de ensinarem a Sua doutrina aos jovens que amem:
"E agora, Oliver Cowdery, dirijo-me a ti e também a David Whitmer, por meio de mandamento; pois eis que ordeno a todos os homens de todos os lugares que se arrependam; e falo a vós como falei a Paulo, meu apóstolo, porque sois chamados pelo mesmo chamado que ele. Lembrai-vos de que o valor das almas é grande à vista de Deus." (D&C 18: 9­10)
Ele começa dizendo o quanto confia neles. Em seguida, conquista-lhes o coração, dizendo o quanto Ele e Seu Pai amam cada alma. Depois explica a base de Sua doutrina e descreve as razões que temos para amá-Lo.
"Pois eis que o Senhor vosso Redentor sofreu a morte na carne; portanto sofreu a dor de todos os homens, para que todos os homens se arrependessem e viessem a ele. E ressuscitou dentre os mortos, para trazer a si todos os homens, sob condição de arrependimento. E quão grande é sua alegria pela alma que se arrepende!" (D&C 18: 11­13)
Depois de tocar-lhes o coração ensinando a doutrina concernente à Sua missão, Ele dá-lhes o mandamento:
"Portanto sois chamados para clamar arrependimento a este povo." (D&C 18:14)
Finalmente, abre-lhes os olhos para que vejam além do véu. Remete-nos todos a uma existência futura, descrita no grande plano de salvação, ao lugar onde poderemos, um dia, estar. Fala-nos de amizades tão maravilhosas, que valeriam todos os sacrifícios que fizéssemos para tê-las:
"E, se trabalhardes todos os vossos dias clamando arrependimento a este povo e trouxerdes a mim mesmo que seja uma só alma, quão grande será vossa alegria com ela no reino de meu Pai!
E agora, se vossa alegria é grande com uma só alma que tiverdes trazido a mim no reino de meu Pai, quão grande será vossa alegria se me trouxerdes muitas almas! (D&C 18: 15­16)
Nessas poucas passagens, Ele ensina a doutrina para que abramos o coração ao Seu amor. Ensina a doutrina para que vejamos as realidades espirituais, invisíveis à mente que não esteja iluminada pelo Espírito da Verdade.
A necessidade de abrir olhos e tocar corações mostra-nos como devemos ensinar a doutrina. Ela só tem força quando o Espírito Santo confirma que é verdadeira. Preparamos aqueles a quem ensinamos da melhor maneira possível para ouvirem o sussurro suave da voz mansa e delicada. Isso exige, pelo menos, um pouco de fé em Jesus Cristo. Exige, pelo menos, um pouco de humildade e desejo de colacar-se à disposição do Salvador. Talvez as pessoas a quem estejam ensinando tenham pouca fé e humildade, mas vocês podem fazer com que tenham o desejo de acreditar. Mais do que isso, podem receber a segurança fundamentada na segunda força da doutrina. A verdade prepara seu próprio caminho. Basta ouvir as palavras da doutrina para que a semente da fé seja plantada no coração. Mesmo uma sementinha de fé em Jesus Cristo serve de convite ao Espírito.
Temos mais controle sobre nossa própria preparação. Banqueteamo-nos com a palavra de Deus encontrada nas escrituras e estudamos as palavras dos profetas vivos. Jejuamos e oramos para pedir que o Espírito esteja conosco e com a pessoa a quem ensinamos.
Como precisamos da ajuda do Espírito Santo, devemos ser prudentes e cuidadosos para não ensinarmos o que não seja doutrina verdadeira. O Espírito Santo é o Espírito da Verdade. Ele confirmará o que ensinarmos, se evitarmos a especulação e a interpretação pessoal; o que pode ser difícil fazer. Amamos a pessoa a quem estamos tentando influenciar. Ela pode ter ignorado a doutrina que lhe foi ensinada. A idéia de experimentar algo novo ou sensacional é tentadora. Contudo, é quando tomamos o cuidado de ensinar somente a doutrina verdadeira que convidamos o Espírito Santo a estar presente.
Uma das maneiras mais certas de não incorrermos em doutrina falsa é ensinarmos com simplicidade. A segurança está na simplicidade, e não se perde nada com isso. Sabemos disso porque o Salvador nos disse que ensinássemos a doutrina mais importante às criancinhas. Ouçam esta ordem:
"E também, se em Sião ou em qualquer de suas estacas organizadas houver pais que, tendo filhos, não os ensinarem a compreender a doutrina do arrependimento, da fé em Cristo, o Filho do Deus vivo, e do batismo e do dom do Espírito Santo pela imposição das mãos, quando tiverem oito anos, sobre a cabeça dos pais seja o pecado." (D&C 68:25)
Podemos ensinar até mesmo uma criança a entender a doutrina de Jesus Cristo. Portanto, com a ajuda de Deus é possível ensinar a doutrina de salvação com simplicidade.
Nossa probabilidade de sucesso é maior com as crianças pequenas. O melhor momento de ensiná-las é bem cedo, enquanto ainda são imunes às tentações de seu inimigo mortal, e bem antes que o barulho das dificuldades pessoais as atrapalhe de ouvir as palavras da verdade.
Os pais sábios jamais perderiam uma oportunidade de reunir os filhos para aprenderem a doutrina de Jesus Cristo. Esses momentos são raríssimos quando comparados ao trabalho do inimigo. Para cada hora de ensino de doutrina na vida de uma criança, é possível que haja centenas de horas de mensagens e imagens que negam e ignoram as verdades de salvação.
Não nos devemos perguntar se estamos ou não muito cansados para prepararmo-nos para ensinar a doutrina; ou se não seria melhor aproximar-nos dos filhos com brincadeiras, ou se eles não estariam começando a pensar que fazemos sermões demais. Deveríamos é perguntar: "Como tenho tão pouco tempo e tão poucas oportunidades, o que poderia dizer para fortalecê-los quando sua fé for atacada, o que por certo acontecerá?" Pode ser que eles se lembrem das palavras que vocês dizem hoje; e o dia de hoje logo terá fim.
Os anos passam, e nós ensinamos a doutrina da melhor maneira possível, e mesmo assim, nem todos correspondem. Isso é triste. Mas, nas escrituras, econtramos histórias de famílias que nos dão esperanças. Pensem em Alma, o filho, e Enos. No momento de crise, lembraram-se das palavras do pai, as palavras da doutrina de Cristo; e isso os salvou. Os seus ensinamentos da doutrina sagrada também serão lembrados.
Poderão surgir duas dúvidas. Talvez se perguntem se sabem a doutrina o suficiente para ensinar; e, caso já tenham tentado ensiná-la, talvez se perguntem por que não a vêem surtir efeito.
Em minha família, houve uma jovem que teve a coragem de começar a ensinar a doutrina quando ainda era membro há pouco tempo, e não tinha muita instrução. O fato de seus ensinamentos continuarem produzindo efeito dá-me paciência para esperar os frutos do meu próprio trabalho.
Minha bisavó chamava-se Mary Bommeli. Não cheguei a conhecê-la. Uma de suas netas escreveu uma história que a ouviu contar.
Mary nasceu em 1830. Os missionários ensinaram sua família na Suíça quando ela estava com vinte e quatro anos. Ela ainda morava com a família numa pequena fazenda e ajudava no sustento da casa tecendo e vendendo roupas. Quando a família ouviu a doutrina restaurada do Evangelho de Jesus Cristo, logo soube que era verdadeira. Foram todos batizados. Os irmãos de Mary serviram como missionários sem bolsa nem alforje. O restante da família vendeu tudo o que possuía para se unir aos santos nos Estados Unidos.
Não havia dinheiro suficiente para todos irem. Mary propôs-se a ficar para trás, porque achava que, tecendo, poderia ganhar dinheiro suficiente para manter-se e economizar para a viagem. Ficou na casa de uma mulher em Berlim, que a contratou para tecer roupas para sua família. Morava em um quarto de empregados e tecia na área social da casa.
Era contra a lei ensinar a doutrina da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em Berlim; mas Mary não conseguiu guardar as boas-novas só para si. A dona da casa e suas amigas reuníam-se ao redor do tear da moça suíça para ouví-la ensinar. Ela falou da aparição do Pai Celestial e Jesus Cristo a Joseph Smith, da visita de anjos e do Livro de Mórmon. Quando chegou aos registros de Alma, ensinou a doutrina da ressurreição.
Isso atrapalhou o trabalho dela. Naquela época, muitas crianças morriam bem pequenas. As mulheres que estavam ao redor do tear tiveram filhos que morreram, vários até. Quando Mary explicou que as crianças eram herdeiras do Reino Celestial e que aquelas mulheres voltariam a encontrar os filhos, o Salvador e o Pai Celestial, todas choraram, inclusive Mary. Todas aquelas lágrimas molharam o tecido que ela estava fazendo.
Os ensinamentos de Mary criaram problemas ainda mais graves. Apesar de ter suplicado às mulheres que não mencionassem a ninguém o que lhes tinha dito, elas o fizeram. Falaram da boa doutrina a seus amigos. Então, certa noite, alguém bateu à porta. Era a polícia. Mary foi presa. A caminho da prisão, perguntou ao policial o nome do juiz a quem deveria apresentar-se na manhã seguinte. Perguntou se ele tinha família e se era bom pai e marido. O policial sorriu ao dizer que o juiz era um homem mundano.
Na prisão, Mary pediu lápis e papel e escreveu uma carta ao juiz. Escreveu sobre a ressurreição de Jesus Cristo conforme descrita no Livro de Mórmon, sobre o mundo espiritual e quanto tempo o juiz teria antes do julgamento final, para considerar e pensar sobre sua vida. Disse que sabia que ele tinha muito de que se arrepender, coisas que iriam magoar seus familiares e causar grande tristeza a ele também. Mary passou a noite toda escrevendo. Pela manhã, pediu ao policial que levasse sua carta ao juiz, e ele o fez.
Mais tarde, o policial foi chamado à sala do juiz. A carta de Mary era uma prova irrefutável de que ela vinha ensinando o evangelho e, portando, infrigindo a lei. Contudo, o policial não tardou a voltar à cela de Mary. Disse-lhe que todas as acusações haviam sido retiradas e que ela estava livre por causa das coisas que escrevera na carta. Ao ensinar a doutrina do evangelho restaurado de Jesus Cristo, ela tocou tantos corações que acabou sendo presa. O fato de ter declarado a doutrina do arrependimento ao juiz fez com que fosse libertada. (Ver Theresa Snow Hill, Life and Times of Henry Eyring and Mary Bommeli, 1997, pp. 15­22.)
Os ensinamentos de Mary Bommeli não tocaram somente as mulheres ao redor do tear e o juiz. Nas conversas que meu pai, neto dela, teve comigo nas noites que precederam sua morte. Falou das alegres reuniões que em breve aconteceriam no mundo espiritual. Falava com tamanha certeza que eu quase podia ver o brilho do sol e o sorriso no rosto das pessoas que estavam no paraíso.
Em dado momento, perguntei-lhe se tinha algo de que se deveria arrepender. Ele sorriu. Deu uma risadinha e disse: "Não, Hal, venho me arrependendo ao longo da vida". A doutrina do paraíso que Mary Bommeli ensinou àquelas mulheres era real para seu neto. Até a doutrina que ela ensinara ao juiz influenciou a vida de meu pai para sempre. Esse não será o fim dos ensinamentos de Mary Bommeli. O registro de suas palavras ensinará a doutrina verdadeira a muitas gerações futuras de sua família. Como ela acreditava que mesmo os membros novos soubessem doutrina suficiente para ensinar, a mente e o coração de seus descendentes serão tocados e eles serão fortalecidos na hora da batalha.
Vocês ensinaram a doutrina a seus descententes, e eles irão ensiná-la uns aos outros. A doutrina pode fazer muito mais do que abrir a mente para as coisas espirituais e o coração para o amor de Deus. Quando traz alegria e paz, a doutrina também tem o poder de fazer as pessoas falarem. Assim como aquelas mulheres de Berlim, seus descendentes não conseguirão guardar as boas-novas para si.
Sou grato por viver em uma época em que nossa família tem a plenitude do evangelho restaurado. Sou grato pela missão de amor do Salvador, e pelas palavras de vida que nos deu. Oro pedindo que transmitamos essas palavras àqueles a quem amamos. Testifico que Deus, nosso Pai, vive e ama a todos os filhos. Jesus Cristo é Seu Filho Unigênito na carne e nosso Salvador. Ele ressuscitou. Podemos ser purificados por intermédio da obediência às leis e ordenanças do evangelho de Jesus Cristo. As chaves do sacerdócio foram restauradas. O Presidente Gordon BHinckley tem essas chaves. Sei que essas coisas são verdadeiras. Em nome de Jesus Cristo. Amém. 

domingo, 9 de abril de 2017

Um Domingo no Vietna


O seguinte relato foi escrito por Roger McLaughlin, membro d`A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e médico que serviu na Força Aérea dos Estados Unidos da América, na Guera do Vietnã. Roger e seu amigo Don, tinham saído para fazer algumas verificações, enquanto Tracy, outro de seus amigos, cuidava de seus afazeres, que consistian em ajudar a preparar os cadáveres dos soldados mortos para serem embarcados para os Estados Unidos.

“Entramos por aquela porta, numa enorme sala, onde Tracy estava trabalhando. Um forte odor de desinfetantes químicos empregnava o frescor do ambiente”.

“Tracy estava em pé, ao lado de um corpo quase, deitado em uma das mesas frias de metal. Havia mais oito corpos, em outras mesas semelhantes. Alguns deles ainda estavam vestidos com uniformes encharcados de lama e sangue. Outros estavam nus, com apenas uma toalha no corpo. À sala estava bem iluminada, e não dava impressão de estar-se num necrotério, exceto pela presença de corpos”.

“Tracy olhou para nós e sorriu: Ei rapazes, o que estão fazendo aqui?” Nós sorrimos também e lhes falamos a respeito das jaquetas que iríamos mandar fazer. Seu rosto iluminou-se e ele se nos certificou de que desejava uma também, mas que não poderia ir, até que terminasse de limpar os corpos...

“Eu e Don pegamos os desinfetantes, trapos e passamos a trabalhar com a vítima que se encontrava mais proxíma. Enquanto isso, conversamos a respeito da guerra em geral, e de como esses jovens haviam sido mortos.

“Primeiro, tiramos-lhes os uniformes, lavamos e esfregamos seus corpos com um desinfetantes verde e grosso, depois enxaguamos com água limpa e os enxugamos. Trabalhamos em três e conversando, não levou muito tempo para limparmos todos”.

“Depois, então, Tracy pegou os longos e pesados sacos pretos para colocar os corpos. Pusemos um saco ao lado de um cadáver, colocamo-lo dentro, juntamente com os pertences dos soldados. Deixamos os sacos abertos, uma vez que o sargento teria de inspecioná-los, terminar os papéis e fechar pessoalmente cada saco”.

“Quando estávamos quase para terminar, eu e Tracy começamos a limpar  as mesas e o chão, enquanto Don fazia uma inspeção final.

“Já estavamos para sair, quando Don perguntou: Ei, é verdade que certas funções do corpo de uma pessoa continuam a trabalhar, de alguma forma, mesmo depois de morta?” Olhei para ele e disse: Bem, ouvi dizer que os cabelos continuam crescendo durante algumas horas, mas na realidade, não é assim perceptível. A mente pode funcionar por alguns minutos, depois que o coração pára, mas acho que isso é tudo. Por que?

“Bem, o que você diz a respeito das grândulas lacrimais? Podem funcionar após a morte?

“Nunca ouvi falar de coisa semelhante, embora ache possível... Mas, por que todas essas perguntas?

“Bem, pensei que houvéssemos deixado um pouco de água nos olhos deste rapaz, ao enxuguá-lo, mas já enxaguei duas vezes, e a água continua escorrer. Acho que ele está chorando.”

“Eu e Tracy levantamos e dirigi-mos até o corpo. Ao olharmos o rosto do jovem que deveria ter dezoito anos de idade, e que fora atingido por uma granada, vimos uma única lágrima escorrer do canto do olho, até chegar à orelha.

“Esse homem está vivo, murmurei. A reação foi imediata, como se já houvéssemos feito aquilo uma centena de vezes. Don apanhou as chaves da ambulância e abriu a porta para nós, enquanto levávamos o corpo para fora. Colocamo-lo na padiola e, com Don dirigindo, encaminhamo-nos ao 71º  Hospital de Evacuação. A sirene tocava, anunciando nossa passagem.

“Enquanto a ambulância avançava aos solavancos, Tracy enxugou uma outra lágrima do rosto do rapaz. Olhei a chapa de identidade, para verificar o nome do jovem, pois queria dar-lhe uma benção. Notei, então, bem embaixo da chapa três pequenas letras: SUD. Coloquei as mãos sobre a sua cabeça e murmurei uma oração quase inaudível: Pela autoridade do Sacerdócio de Melquisedeque, que possuo, e pelo poder de Jesus Cristo, ordeno-lhe que permaneça vivo até que possamos conseguir os medicamentos necessários para salvar sua vida.

“Tracy, olhou para mim e enxugou uma lágrima de seus próprios olhos, esboçou um sorriso grato, e baixou a cabeça em oração silenciosa.

“A sirene e nós cruzamos a rua asfaltada, em direção as portas do Hospital. Os médicos do Exército ajudaram a retirar o Soldado da ambulância e levá-lo para a sala de emergência. Dois Outros médicos começaram a fazer perguntas e dissemo-lhes tudo que sabíamos. Depois, retiraram-se da entrada de emergência sem dizer uma palavra, e nós ficamos sentados do lado de fora, num banco de madeira, por mais de duas horas.

“Discutíamos ainda sobre se devíamos ou não sair, para ver o negócio das camisetas, quando um dos médicos apareceu, vindo em nossa direção. Ele parou e disse: “Alegro-me de que tenham esperado, foram as suas primeiras palavras, Quero-lhes relatar um milagre que acaba de acontecer. Aquele rapaz que está lá dentro, de acordo com todos os critérios médicos, deveria estar morto. Foi ferido em nove lugares. Já havia perdido tanto sangue, que não sangrava mais.

“O caração estava tão fraco que, não se podia ouvir nem uma batida ou sentir a sua pulsação. Estava tão fraco, que não se podia perceber que respirava. Achava-se legalmente morto, mas na realidade estava vivo.

“Estava tão fraco, que não podia mover-se ou falar, e por isso permaneceu naquela cama do necritério, e chorou. Ele teve muita sorte de vocês notarem suas lágrimas, pois do contrário teria morrido logo. Para dizer a verdade, deveria ter morrido, mesmo depois de vocês terem trazido aqui.

Embora-lhe tivéssimos dado mais de dois litros de sangue, e tratado suas feridas da melhor maneira possível. Ainda tinha forças para recuperar-se, mas finalmente conseguiu. “O médico fez uma pausa, e depois olhou bem para nós. Durante os quinze meses que tenho trabalhado aqui no Vietnã, nunca vi um milagre assim. Ao falar, olhava para o chão. “Querem saber de uma coisa? Aquele soldado jovem soldado olhou para mim, há alguns minutos, deu um sorriso muito fraco e disse: “Sacerdócio”. O que vocês acham que ele queria dizer com isso? E, sem esperar a resposta, o médico voltou-se e passou vagarosamente pelas portas abertas do Hospital.

“Agora que me encontro aqui, exposto ao sol, sei que um dia voltarei e explicarei tudo ao médico. Mas, no momento quero apenas descansar e desfrutar da alegria  haver participado de um milagre nos dias modernos”. (Roger McLaughlin, “Um Domingo no Vietnã”, A Liahona, agosto de 1971, p. 24.)

 

domingo, 29 de janeiro de 2017

O conselho do monge

Aos pés do Himalaia um Mestre me contou uma história que ele dizia ser verdadeira. Na Índia tudo é possível. Havia um pequeno vilarejo onde todos eram livres e felizes. Todos podiam falar... até os animais. Só havia um problema, não conseguiam conviver com a dona cobra rajada pois ela era muito feroz. Atacava, picava... assustava... e as crianças tinham muito medo dela assim como os adultos.
Já estavam pensando em eliminar a cobra do local, quando um Monge ali ia passando em sua peregrinação. Ao ouvir o alvoroço aproximou-se. E a população pediu a ele que gentilmente o ajudassem.
O Monge muito sábio foi até a cobra com muita cautela. Ela de longe sibilava e ameaçava-o. Foi quando ele disse que seus dias estavam contados e ela se assustou.
-“Como assim”?
-“Sim, você é muito feroz. Maltrata a todos, até os inocentes. Ninguém mais gosta de você”.
-“Mas só estou fazendo o que sempre me ensinaram. É de minha natureza. Como posso eu ser diferente”?
O Monge lhe disse para ser mais amiga... não maltratar os inocentes, ser mais bondosa e depois disto ele foi embora.
E ela se pôs a meditar.
Um ano depois o monge passa pelo mesmo vilarejo e encontra a cidade em festa, todos felizes com a cobra que se encontrava toda machucada, com curativos por todos os lados de seu corpo finoooo...
-“Mas o que houve”?
-“Oh Monge, fiz tudo o que me ensinaste. Hoje sou muito bondosa... mas olha só para mim”.
-“Minha amiga cobra... ser boba é diferente de ser boa. Falei para você não maltratar os inocentes... mas não lhe pedi que não mostrasse seus dentes”.

Vânia Lúcia Slaviero
No livro: A cura pelas metáforas

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Salvamento no Mar

Anos atrás, em uma aldeia de pescadores na Holanda, um jovem mostrou ao mundo quais eram as recompensas para quem serve aos outros desinteressadamente. Como toda a vida da aldeia girava em torno da indústria pesqueira, era preciso que houvesse uma equipe de salvamento, composta por voluntários, para atuar em situações de emergência. Em uma noite de tempestade, os fortes ventos fizeram um pesqueiro virar no mar. Em dificuldades, a tripulação havia enviado um S.O.S. O capitão da equipe do bote de salvamento fez soar o alarme e toda a aldeia se reuniu na praça para olhar atentamente para a baía. Enquanto a equipe lançava à água o bote e tentava avançar através das enormes ondas, os aldeões esperavam aflitos na praia, segurando lanternas para iluminar o caminho de volta.
Uma hora depois o bote reapareceu em meio ao nevoeiro e os animados aldeões correram para cumprimentar os seus ocupantes. Caindo exaustos na areia, os voluntários disseram que o bote não pudera comportar mais nenhum passageiro, e eles tiveram de deixar um homem para trás. Um só passageiro a mais o faria virar, e todos os outros pereceriam.
Desesperado, o capitão convocou outra equipe de voluntários para procurar o único sobrevivente. Hans, de dezesseis anos, deu um passo à frente. Sua mãe segurou seu braço, implorando:
- Por favor, não vá. Seu pai morreu em um naufrágio há dez anos, e seu irmão mais velho, Paul, está perdido no mar há três semanas. Hans, você é tudo que me resta.
Hans respondeu:
- Mãe, eu tenho de ir. E se todos dissessem, 'Eu não posso ir, outra pessoa que faça isso'? Desta vez tenho de cumprir o meu dever. Quando o dever chama, temos de fazer a nossa parte.
Hans beijou a sua mãe, juntou-se à equipe e desapareceu na noite.
Passou-se outra hora, que pareceu à mãe de Hans uma eternidade. Finalmente, o bote surgiu em meio ao nevoeiro com Hans em pé na proa. Pondo as mãos em concha, o capitão gritou:
- Encontrou o homem perdido?
Mal conseguindo conter-se, Hans gritou excitadamente de volta:
- Sim, nós o encontramos. Diga à minha mãe que é o meu irmão mais velho, Paul!