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sábado, 17 de junho de 2017

A Doutrina

Élder Henry B. Eyring
Quórum dos Doze Apóstolos

Podemos ensinar até mesmo uma criança a entender a doutrina de Jesus Cristo. Portanto, com a ajuda de Deus é possível ensinar a doutrina de salvação com simplicidade.

Alma foi o líder de um povo que enfrentou a destruição infligida por inimigos terríveis. Diante do perigo, teve de escolher, pois não podia fazer tudo. Ele poderia ter construído fortalezas, criado armamentos ou treinado exércitos. No entanto, sua única esperança de vitória era receber o auxílio de Deus, e sabia que para isso, o povo teria que se arrepender. Então, decidiu tentar uma coisa primeiro:
Sempre houve guerra entre a luz e as trevas, entre o bem e o mal, mesmo antes da criação do mundo. A batalha entre o bem e o mal continua, e parece que o número de baixas é crescente. Todos nós temos membros da família a quem amamos e que estão sendo atormentados pelas forças do destruidor, que deseja que todos os filhos de Deus se tornem miseráveis. Muitos de nós já passaram noites em claro. Existem forças invisíveis do bem e do mal que envolvem as pessoas que estão em perigo, e tentamos fazer com que as forças do bem aumentem ao máximo. Nós as amamos. Demos o melhor exemplo que podíamos. Oramos suplicando por elas. Há muito tempo, um sábio profeta deu-nos um conselho a respeito de outra força que, às vezes, subestimamos e por isso utilizamos muito pouco.

"Ora, como a pregação da palavra exercia uma grande influência sobre o povo, levando-o a praticar o que era justo -- sim, surtia um efeito mais poderoso sobre a mente do povo do que a espada ou qualquer outra coisa que lhe houvesse acontecido -- Alma, portanto, pensou que seria aconselhável pôr à prova a virtude da palavra de Deus." (Alma 31:5)
A palavra de Deus é a doutrina ensinada por Jesus Cristo e por Seus profetas. Alma sabia que as palavras da doutrina tinham grande poder. Podem abrir a mente das pessoas para que vejam as coisas espirituais, invisíveis aos olhos naturais. Abrem também o coração para o amor de Deus e para o amor à verdade. O Salvador utilizou essas duas fontes de poder, que são abrir a mente e o coração, na seção 18 de Doutrina e Convênios, ao ensinar a Sua doutrina a quem escolhera para ser missionário. À medida que eu falar, pensem nos rapazes de sua família que estão agora hesitando em se preparar para a missão. Foi assim que o Mestre ensinou dois de Seus servos, e é uma maneira de ensinarem a Sua doutrina aos jovens que amem:
"E agora, Oliver Cowdery, dirijo-me a ti e também a David Whitmer, por meio de mandamento; pois eis que ordeno a todos os homens de todos os lugares que se arrependam; e falo a vós como falei a Paulo, meu apóstolo, porque sois chamados pelo mesmo chamado que ele. Lembrai-vos de que o valor das almas é grande à vista de Deus." (D&C 18: 9­10)
Ele começa dizendo o quanto confia neles. Em seguida, conquista-lhes o coração, dizendo o quanto Ele e Seu Pai amam cada alma. Depois explica a base de Sua doutrina e descreve as razões que temos para amá-Lo.
"Pois eis que o Senhor vosso Redentor sofreu a morte na carne; portanto sofreu a dor de todos os homens, para que todos os homens se arrependessem e viessem a ele. E ressuscitou dentre os mortos, para trazer a si todos os homens, sob condição de arrependimento. E quão grande é sua alegria pela alma que se arrepende!" (D&C 18: 11­13)
Depois de tocar-lhes o coração ensinando a doutrina concernente à Sua missão, Ele dá-lhes o mandamento:
"Portanto sois chamados para clamar arrependimento a este povo." (D&C 18:14)
Finalmente, abre-lhes os olhos para que vejam além do véu. Remete-nos todos a uma existência futura, descrita no grande plano de salvação, ao lugar onde poderemos, um dia, estar. Fala-nos de amizades tão maravilhosas, que valeriam todos os sacrifícios que fizéssemos para tê-las:
"E, se trabalhardes todos os vossos dias clamando arrependimento a este povo e trouxerdes a mim mesmo que seja uma só alma, quão grande será vossa alegria com ela no reino de meu Pai!
E agora, se vossa alegria é grande com uma só alma que tiverdes trazido a mim no reino de meu Pai, quão grande será vossa alegria se me trouxerdes muitas almas! (D&C 18: 15­16)
Nessas poucas passagens, Ele ensina a doutrina para que abramos o coração ao Seu amor. Ensina a doutrina para que vejamos as realidades espirituais, invisíveis à mente que não esteja iluminada pelo Espírito da Verdade.
A necessidade de abrir olhos e tocar corações mostra-nos como devemos ensinar a doutrina. Ela só tem força quando o Espírito Santo confirma que é verdadeira. Preparamos aqueles a quem ensinamos da melhor maneira possível para ouvirem o sussurro suave da voz mansa e delicada. Isso exige, pelo menos, um pouco de fé em Jesus Cristo. Exige, pelo menos, um pouco de humildade e desejo de colacar-se à disposição do Salvador. Talvez as pessoas a quem estejam ensinando tenham pouca fé e humildade, mas vocês podem fazer com que tenham o desejo de acreditar. Mais do que isso, podem receber a segurança fundamentada na segunda força da doutrina. A verdade prepara seu próprio caminho. Basta ouvir as palavras da doutrina para que a semente da fé seja plantada no coração. Mesmo uma sementinha de fé em Jesus Cristo serve de convite ao Espírito.
Temos mais controle sobre nossa própria preparação. Banqueteamo-nos com a palavra de Deus encontrada nas escrituras e estudamos as palavras dos profetas vivos. Jejuamos e oramos para pedir que o Espírito esteja conosco e com a pessoa a quem ensinamos.
Como precisamos da ajuda do Espírito Santo, devemos ser prudentes e cuidadosos para não ensinarmos o que não seja doutrina verdadeira. O Espírito Santo é o Espírito da Verdade. Ele confirmará o que ensinarmos, se evitarmos a especulação e a interpretação pessoal; o que pode ser difícil fazer. Amamos a pessoa a quem estamos tentando influenciar. Ela pode ter ignorado a doutrina que lhe foi ensinada. A idéia de experimentar algo novo ou sensacional é tentadora. Contudo, é quando tomamos o cuidado de ensinar somente a doutrina verdadeira que convidamos o Espírito Santo a estar presente.
Uma das maneiras mais certas de não incorrermos em doutrina falsa é ensinarmos com simplicidade. A segurança está na simplicidade, e não se perde nada com isso. Sabemos disso porque o Salvador nos disse que ensinássemos a doutrina mais importante às criancinhas. Ouçam esta ordem:
"E também, se em Sião ou em qualquer de suas estacas organizadas houver pais que, tendo filhos, não os ensinarem a compreender a doutrina do arrependimento, da fé em Cristo, o Filho do Deus vivo, e do batismo e do dom do Espírito Santo pela imposição das mãos, quando tiverem oito anos, sobre a cabeça dos pais seja o pecado." (D&C 68:25)
Podemos ensinar até mesmo uma criança a entender a doutrina de Jesus Cristo. Portanto, com a ajuda de Deus é possível ensinar a doutrina de salvação com simplicidade.
Nossa probabilidade de sucesso é maior com as crianças pequenas. O melhor momento de ensiná-las é bem cedo, enquanto ainda são imunes às tentações de seu inimigo mortal, e bem antes que o barulho das dificuldades pessoais as atrapalhe de ouvir as palavras da verdade.
Os pais sábios jamais perderiam uma oportunidade de reunir os filhos para aprenderem a doutrina de Jesus Cristo. Esses momentos são raríssimos quando comparados ao trabalho do inimigo. Para cada hora de ensino de doutrina na vida de uma criança, é possível que haja centenas de horas de mensagens e imagens que negam e ignoram as verdades de salvação.
Não nos devemos perguntar se estamos ou não muito cansados para prepararmo-nos para ensinar a doutrina; ou se não seria melhor aproximar-nos dos filhos com brincadeiras, ou se eles não estariam começando a pensar que fazemos sermões demais. Deveríamos é perguntar: "Como tenho tão pouco tempo e tão poucas oportunidades, o que poderia dizer para fortalecê-los quando sua fé for atacada, o que por certo acontecerá?" Pode ser que eles se lembrem das palavras que vocês dizem hoje; e o dia de hoje logo terá fim.
Os anos passam, e nós ensinamos a doutrina da melhor maneira possível, e mesmo assim, nem todos correspondem. Isso é triste. Mas, nas escrituras, econtramos histórias de famílias que nos dão esperanças. Pensem em Alma, o filho, e Enos. No momento de crise, lembraram-se das palavras do pai, as palavras da doutrina de Cristo; e isso os salvou. Os seus ensinamentos da doutrina sagrada também serão lembrados.
Poderão surgir duas dúvidas. Talvez se perguntem se sabem a doutrina o suficiente para ensinar; e, caso já tenham tentado ensiná-la, talvez se perguntem por que não a vêem surtir efeito.
Em minha família, houve uma jovem que teve a coragem de começar a ensinar a doutrina quando ainda era membro há pouco tempo, e não tinha muita instrução. O fato de seus ensinamentos continuarem produzindo efeito dá-me paciência para esperar os frutos do meu próprio trabalho.
Minha bisavó chamava-se Mary Bommeli. Não cheguei a conhecê-la. Uma de suas netas escreveu uma história que a ouviu contar.
Mary nasceu em 1830. Os missionários ensinaram sua família na Suíça quando ela estava com vinte e quatro anos. Ela ainda morava com a família numa pequena fazenda e ajudava no sustento da casa tecendo e vendendo roupas. Quando a família ouviu a doutrina restaurada do Evangelho de Jesus Cristo, logo soube que era verdadeira. Foram todos batizados. Os irmãos de Mary serviram como missionários sem bolsa nem alforje. O restante da família vendeu tudo o que possuía para se unir aos santos nos Estados Unidos.
Não havia dinheiro suficiente para todos irem. Mary propôs-se a ficar para trás, porque achava que, tecendo, poderia ganhar dinheiro suficiente para manter-se e economizar para a viagem. Ficou na casa de uma mulher em Berlim, que a contratou para tecer roupas para sua família. Morava em um quarto de empregados e tecia na área social da casa.
Era contra a lei ensinar a doutrina da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em Berlim; mas Mary não conseguiu guardar as boas-novas só para si. A dona da casa e suas amigas reuníam-se ao redor do tear da moça suíça para ouví-la ensinar. Ela falou da aparição do Pai Celestial e Jesus Cristo a Joseph Smith, da visita de anjos e do Livro de Mórmon. Quando chegou aos registros de Alma, ensinou a doutrina da ressurreição.
Isso atrapalhou o trabalho dela. Naquela época, muitas crianças morriam bem pequenas. As mulheres que estavam ao redor do tear tiveram filhos que morreram, vários até. Quando Mary explicou que as crianças eram herdeiras do Reino Celestial e que aquelas mulheres voltariam a encontrar os filhos, o Salvador e o Pai Celestial, todas choraram, inclusive Mary. Todas aquelas lágrimas molharam o tecido que ela estava fazendo.
Os ensinamentos de Mary criaram problemas ainda mais graves. Apesar de ter suplicado às mulheres que não mencionassem a ninguém o que lhes tinha dito, elas o fizeram. Falaram da boa doutrina a seus amigos. Então, certa noite, alguém bateu à porta. Era a polícia. Mary foi presa. A caminho da prisão, perguntou ao policial o nome do juiz a quem deveria apresentar-se na manhã seguinte. Perguntou se ele tinha família e se era bom pai e marido. O policial sorriu ao dizer que o juiz era um homem mundano.
Na prisão, Mary pediu lápis e papel e escreveu uma carta ao juiz. Escreveu sobre a ressurreição de Jesus Cristo conforme descrita no Livro de Mórmon, sobre o mundo espiritual e quanto tempo o juiz teria antes do julgamento final, para considerar e pensar sobre sua vida. Disse que sabia que ele tinha muito de que se arrepender, coisas que iriam magoar seus familiares e causar grande tristeza a ele também. Mary passou a noite toda escrevendo. Pela manhã, pediu ao policial que levasse sua carta ao juiz, e ele o fez.
Mais tarde, o policial foi chamado à sala do juiz. A carta de Mary era uma prova irrefutável de que ela vinha ensinando o evangelho e, portando, infrigindo a lei. Contudo, o policial não tardou a voltar à cela de Mary. Disse-lhe que todas as acusações haviam sido retiradas e que ela estava livre por causa das coisas que escrevera na carta. Ao ensinar a doutrina do evangelho restaurado de Jesus Cristo, ela tocou tantos corações que acabou sendo presa. O fato de ter declarado a doutrina do arrependimento ao juiz fez com que fosse libertada. (Ver Theresa Snow Hill, Life and Times of Henry Eyring and Mary Bommeli, 1997, pp. 15­22.)
Os ensinamentos de Mary Bommeli não tocaram somente as mulheres ao redor do tear e o juiz. Nas conversas que meu pai, neto dela, teve comigo nas noites que precederam sua morte. Falou das alegres reuniões que em breve aconteceriam no mundo espiritual. Falava com tamanha certeza que eu quase podia ver o brilho do sol e o sorriso no rosto das pessoas que estavam no paraíso.
Em dado momento, perguntei-lhe se tinha algo de que se deveria arrepender. Ele sorriu. Deu uma risadinha e disse: "Não, Hal, venho me arrependendo ao longo da vida". A doutrina do paraíso que Mary Bommeli ensinou àquelas mulheres era real para seu neto. Até a doutrina que ela ensinara ao juiz influenciou a vida de meu pai para sempre. Esse não será o fim dos ensinamentos de Mary Bommeli. O registro de suas palavras ensinará a doutrina verdadeira a muitas gerações futuras de sua família. Como ela acreditava que mesmo os membros novos soubessem doutrina suficiente para ensinar, a mente e o coração de seus descendentes serão tocados e eles serão fortalecidos na hora da batalha.
Vocês ensinaram a doutrina a seus descententes, e eles irão ensiná-la uns aos outros. A doutrina pode fazer muito mais do que abrir a mente para as coisas espirituais e o coração para o amor de Deus. Quando traz alegria e paz, a doutrina também tem o poder de fazer as pessoas falarem. Assim como aquelas mulheres de Berlim, seus descendentes não conseguirão guardar as boas-novas para si.
Sou grato por viver em uma época em que nossa família tem a plenitude do evangelho restaurado. Sou grato pela missão de amor do Salvador, e pelas palavras de vida que nos deu. Oro pedindo que transmitamos essas palavras àqueles a quem amamos. Testifico que Deus, nosso Pai, vive e ama a todos os filhos. Jesus Cristo é Seu Filho Unigênito na carne e nosso Salvador. Ele ressuscitou. Podemos ser purificados por intermédio da obediência às leis e ordenanças do evangelho de Jesus Cristo. As chaves do sacerdócio foram restauradas. O Presidente Gordon BHinckley tem essas chaves. Sei que essas coisas são verdadeiras. Em nome de Jesus Cristo. Amém. 

domingo, 9 de abril de 2017

Um Domingo no Vietna


O seguinte relato foi escrito por Roger McLaughlin, membro d`A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e médico que serviu na Força Aérea dos Estados Unidos da América, na Guera do Vietnã. Roger e seu amigo Don, tinham saído para fazer algumas verificações, enquanto Tracy, outro de seus amigos, cuidava de seus afazeres, que consistian em ajudar a preparar os cadáveres dos soldados mortos para serem embarcados para os Estados Unidos.

“Entramos por aquela porta, numa enorme sala, onde Tracy estava trabalhando. Um forte odor de desinfetantes químicos empregnava o frescor do ambiente”.

“Tracy estava em pé, ao lado de um corpo quase, deitado em uma das mesas frias de metal. Havia mais oito corpos, em outras mesas semelhantes. Alguns deles ainda estavam vestidos com uniformes encharcados de lama e sangue. Outros estavam nus, com apenas uma toalha no corpo. À sala estava bem iluminada, e não dava impressão de estar-se num necrotério, exceto pela presença de corpos”.

“Tracy olhou para nós e sorriu: Ei rapazes, o que estão fazendo aqui?” Nós sorrimos também e lhes falamos a respeito das jaquetas que iríamos mandar fazer. Seu rosto iluminou-se e ele se nos certificou de que desejava uma também, mas que não poderia ir, até que terminasse de limpar os corpos...

“Eu e Don pegamos os desinfetantes, trapos e passamos a trabalhar com a vítima que se encontrava mais proxíma. Enquanto isso, conversamos a respeito da guerra em geral, e de como esses jovens haviam sido mortos.

“Primeiro, tiramos-lhes os uniformes, lavamos e esfregamos seus corpos com um desinfetantes verde e grosso, depois enxaguamos com água limpa e os enxugamos. Trabalhamos em três e conversando, não levou muito tempo para limparmos todos”.

“Depois, então, Tracy pegou os longos e pesados sacos pretos para colocar os corpos. Pusemos um saco ao lado de um cadáver, colocamo-lo dentro, juntamente com os pertences dos soldados. Deixamos os sacos abertos, uma vez que o sargento teria de inspecioná-los, terminar os papéis e fechar pessoalmente cada saco”.

“Quando estávamos quase para terminar, eu e Tracy começamos a limpar  as mesas e o chão, enquanto Don fazia uma inspeção final.

“Já estavamos para sair, quando Don perguntou: Ei, é verdade que certas funções do corpo de uma pessoa continuam a trabalhar, de alguma forma, mesmo depois de morta?” Olhei para ele e disse: Bem, ouvi dizer que os cabelos continuam crescendo durante algumas horas, mas na realidade, não é assim perceptível. A mente pode funcionar por alguns minutos, depois que o coração pára, mas acho que isso é tudo. Por que?

“Bem, o que você diz a respeito das grândulas lacrimais? Podem funcionar após a morte?

“Nunca ouvi falar de coisa semelhante, embora ache possível... Mas, por que todas essas perguntas?

“Bem, pensei que houvéssemos deixado um pouco de água nos olhos deste rapaz, ao enxuguá-lo, mas já enxaguei duas vezes, e a água continua escorrer. Acho que ele está chorando.”

“Eu e Tracy levantamos e dirigi-mos até o corpo. Ao olharmos o rosto do jovem que deveria ter dezoito anos de idade, e que fora atingido por uma granada, vimos uma única lágrima escorrer do canto do olho, até chegar à orelha.

“Esse homem está vivo, murmurei. A reação foi imediata, como se já houvéssemos feito aquilo uma centena de vezes. Don apanhou as chaves da ambulância e abriu a porta para nós, enquanto levávamos o corpo para fora. Colocamo-lo na padiola e, com Don dirigindo, encaminhamo-nos ao 71º  Hospital de Evacuação. A sirene tocava, anunciando nossa passagem.

“Enquanto a ambulância avançava aos solavancos, Tracy enxugou uma outra lágrima do rosto do rapaz. Olhei a chapa de identidade, para verificar o nome do jovem, pois queria dar-lhe uma benção. Notei, então, bem embaixo da chapa três pequenas letras: SUD. Coloquei as mãos sobre a sua cabeça e murmurei uma oração quase inaudível: Pela autoridade do Sacerdócio de Melquisedeque, que possuo, e pelo poder de Jesus Cristo, ordeno-lhe que permaneça vivo até que possamos conseguir os medicamentos necessários para salvar sua vida.

“Tracy, olhou para mim e enxugou uma lágrima de seus próprios olhos, esboçou um sorriso grato, e baixou a cabeça em oração silenciosa.

“A sirene e nós cruzamos a rua asfaltada, em direção as portas do Hospital. Os médicos do Exército ajudaram a retirar o Soldado da ambulância e levá-lo para a sala de emergência. Dois Outros médicos começaram a fazer perguntas e dissemo-lhes tudo que sabíamos. Depois, retiraram-se da entrada de emergência sem dizer uma palavra, e nós ficamos sentados do lado de fora, num banco de madeira, por mais de duas horas.

“Discutíamos ainda sobre se devíamos ou não sair, para ver o negócio das camisetas, quando um dos médicos apareceu, vindo em nossa direção. Ele parou e disse: “Alegro-me de que tenham esperado, foram as suas primeiras palavras, Quero-lhes relatar um milagre que acaba de acontecer. Aquele rapaz que está lá dentro, de acordo com todos os critérios médicos, deveria estar morto. Foi ferido em nove lugares. Já havia perdido tanto sangue, que não sangrava mais.

“O caração estava tão fraco que, não se podia ouvir nem uma batida ou sentir a sua pulsação. Estava tão fraco, que não se podia perceber que respirava. Achava-se legalmente morto, mas na realidade estava vivo.

“Estava tão fraco, que não podia mover-se ou falar, e por isso permaneceu naquela cama do necritério, e chorou. Ele teve muita sorte de vocês notarem suas lágrimas, pois do contrário teria morrido logo. Para dizer a verdade, deveria ter morrido, mesmo depois de vocês terem trazido aqui.

Embora-lhe tivéssimos dado mais de dois litros de sangue, e tratado suas feridas da melhor maneira possível. Ainda tinha forças para recuperar-se, mas finalmente conseguiu. “O médico fez uma pausa, e depois olhou bem para nós. Durante os quinze meses que tenho trabalhado aqui no Vietnã, nunca vi um milagre assim. Ao falar, olhava para o chão. “Querem saber de uma coisa? Aquele soldado jovem soldado olhou para mim, há alguns minutos, deu um sorriso muito fraco e disse: “Sacerdócio”. O que vocês acham que ele queria dizer com isso? E, sem esperar a resposta, o médico voltou-se e passou vagarosamente pelas portas abertas do Hospital.

“Agora que me encontro aqui, exposto ao sol, sei que um dia voltarei e explicarei tudo ao médico. Mas, no momento quero apenas descansar e desfrutar da alegria  haver participado de um milagre nos dias modernos”. (Roger McLaughlin, “Um Domingo no Vietnã”, A Liahona, agosto de 1971, p. 24.)

 

domingo, 29 de janeiro de 2017

O conselho do monge

Aos pés do Himalaia um Mestre me contou uma história que ele dizia ser verdadeira. Na Índia tudo é possível. Havia um pequeno vilarejo onde todos eram livres e felizes. Todos podiam falar... até os animais. Só havia um problema, não conseguiam conviver com a dona cobra rajada pois ela era muito feroz. Atacava, picava... assustava... e as crianças tinham muito medo dela assim como os adultos.
Já estavam pensando em eliminar a cobra do local, quando um Monge ali ia passando em sua peregrinação. Ao ouvir o alvoroço aproximou-se. E a população pediu a ele que gentilmente o ajudassem.
O Monge muito sábio foi até a cobra com muita cautela. Ela de longe sibilava e ameaçava-o. Foi quando ele disse que seus dias estavam contados e ela se assustou.
-“Como assim”?
-“Sim, você é muito feroz. Maltrata a todos, até os inocentes. Ninguém mais gosta de você”.
-“Mas só estou fazendo o que sempre me ensinaram. É de minha natureza. Como posso eu ser diferente”?
O Monge lhe disse para ser mais amiga... não maltratar os inocentes, ser mais bondosa e depois disto ele foi embora.
E ela se pôs a meditar.
Um ano depois o monge passa pelo mesmo vilarejo e encontra a cidade em festa, todos felizes com a cobra que se encontrava toda machucada, com curativos por todos os lados de seu corpo finoooo...
-“Mas o que houve”?
-“Oh Monge, fiz tudo o que me ensinaste. Hoje sou muito bondosa... mas olha só para mim”.
-“Minha amiga cobra... ser boba é diferente de ser boa. Falei para você não maltratar os inocentes... mas não lhe pedi que não mostrasse seus dentes”.

Vânia Lúcia Slaviero
No livro: A cura pelas metáforas

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Salvamento no Mar

Anos atrás, em uma aldeia de pescadores na Holanda, um jovem mostrou ao mundo quais eram as recompensas para quem serve aos outros desinteressadamente. Como toda a vida da aldeia girava em torno da indústria pesqueira, era preciso que houvesse uma equipe de salvamento, composta por voluntários, para atuar em situações de emergência. Em uma noite de tempestade, os fortes ventos fizeram um pesqueiro virar no mar. Em dificuldades, a tripulação havia enviado um S.O.S. O capitão da equipe do bote de salvamento fez soar o alarme e toda a aldeia se reuniu na praça para olhar atentamente para a baía. Enquanto a equipe lançava à água o bote e tentava avançar através das enormes ondas, os aldeões esperavam aflitos na praia, segurando lanternas para iluminar o caminho de volta.
Uma hora depois o bote reapareceu em meio ao nevoeiro e os animados aldeões correram para cumprimentar os seus ocupantes. Caindo exaustos na areia, os voluntários disseram que o bote não pudera comportar mais nenhum passageiro, e eles tiveram de deixar um homem para trás. Um só passageiro a mais o faria virar, e todos os outros pereceriam.
Desesperado, o capitão convocou outra equipe de voluntários para procurar o único sobrevivente. Hans, de dezesseis anos, deu um passo à frente. Sua mãe segurou seu braço, implorando:
- Por favor, não vá. Seu pai morreu em um naufrágio há dez anos, e seu irmão mais velho, Paul, está perdido no mar há três semanas. Hans, você é tudo que me resta.
Hans respondeu:
- Mãe, eu tenho de ir. E se todos dissessem, 'Eu não posso ir, outra pessoa que faça isso'? Desta vez tenho de cumprir o meu dever. Quando o dever chama, temos de fazer a nossa parte.
Hans beijou a sua mãe, juntou-se à equipe e desapareceu na noite.
Passou-se outra hora, que pareceu à mãe de Hans uma eternidade. Finalmente, o bote surgiu em meio ao nevoeiro com Hans em pé na proa. Pondo as mãos em concha, o capitão gritou:
- Encontrou o homem perdido?
Mal conseguindo conter-se, Hans gritou excitadamente de volta:
- Sim, nós o encontramos. Diga à minha mãe que é o meu irmão mais velho, Paul!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Acertar, sorte ou talento?

Conta a história que um rei mandou fazer um anel com uma pedra preciosa. Depois ordenou aos soldados que colocassem o anel no alto de um enorme poste de madeira, e convocou a população:
— Quem conseguir atirar uma flecha que passe pelo centro do anel o receberá de presente com mais cem moedas de ouro.
Quatrocentas pessoas ofereceram-se para atirar suas flechas. Todas o fizeram. E todas erraram. Perto dali, um jovem brincava com seu arco, quando uma das flechas atiradas por ele foi desviada pelo vento, aproximou-se do poste e atravessou o centro do anel. O rei premiou o rapaz com a joia e as moedas de ouro. Assim que saiu do palácio, a primeira coisa que o jovem fez foi queimar seu arco e suas flechas.
— Por que está fazendo isso? — perguntou um passante.
— Um homem deve entender que às vezes a sorte bate à sua porta, mas jamais deixar que ela o engane e termine convencendo-o de que ele tem talento.
Não espere pela sorte, desenvolva seus talentos!
Autor desconhecido