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domingo, 9 de março de 2014

Ética

Certo dia, a Ética desceu do Olimpo sob a forma de uma linda mulher e dirigiu-se a um reino poderoso. Todos, ao vê-la a distância, ficavam maravilhados, mas à medida que se aproximava, fechavam-lhe as portas.
A Ética tentava comunicar-se, mas em vão: ninguém queria defrontar-se com ela. Bastava sua visão longínqua.
Finalmente, acabrunhada, ao retirar-se, encontrou a Verdade, que se espantou com a sua profunda tristeza:
- Que foi, minha irmã? O que tanto a magoou?
- Cheguei em missão de paz, mas ninguém quis receber-me – disse a Ética, não entendendo as razões porque foi rejeitada.
- Olhe-me de frente! – disse-lhe a Verdade. – Ninguém, nem mesmo você, minha cara Ética, foi capaz de perceber: nós somos espelhos. As pessoas têm medo de se verem refletidas em nós.

terça-feira, 4 de março de 2014

Os Três Crivos

Certa feita, um homem esbaforido aproximou-se do grande filósofo e sussurrou-lhe aos ouvidos:
- Escuta, Sócrates... na condição de teu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-te, em particular...
- Espera!... - Ajuntou o sábio prudente. Já passaste o que vais me dizer pelos três crivos?
- Três crivos? - Perguntou o visitante, espantado.
- Sim, meu caro amigo, três crivos.
Observemos se tua confidência passou por eles.
- O primeiro, é o crivo da verdade. Guardas absoluta certeza quanto àquilo que pretendes comunicar?
- Bem... - ponderou o interlocutor - assegurar mesmo, não posso... mas ouvi dizer e então...
- Exato. Decerto peneiraste o assunto pelo segundo crivo, o da bondade. Ainda que não seja real o que julgas saber, será pelo menos bom o que me queres contar?
Hesitando, o homem replicou:
- Isso não... muito pelo contrário...
- Ah! - tomou o sábio - então recorramos ao terceiro crivo, o da utilidade, e notemos o proveito do que tanto te aflige.
- Útil?!... - perguntou o visitante ainda agitado - útil não é...
- Bem - conclui o filósofo num sorriso - se o que tens a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que nada valem casos sem edificação para nós!..

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Livro: Histórias Interessantes Autor: Assis Almeida Editora: Edições Livro Técnico

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Oleiro e o Poeta

Há muito tempo, na cidade de Zahlé, ocorreu uma rixa entre um jovem poeta, de nome Fauzi, e um oleiro, chamado Nagib. 

Para evitar que o tumulto se agravasse, eles foram levados à presença do juiz do lugarejo. 

O juiz, homem íntegro e bondoso, interrogou primeiramente o oleiro, que parecia muito exaltado. 

"Disseram-me que você foi agredido? Isso é verdade?" 

"Sim, senhor juiz." - confirmou o oleiro - "fui agredido em minha própria casa por este poeta. Eu estava, como de costume, trabalhando em minha oficina, quando ouvi um ruído e a seguir um baque. 

Quando fui à janela pude constatar que o poeta Fauzi havia atirado com violência uma pedra, que partiu um dos vasos que estava a secar perto da porta. 

Exijo uma indenização!" - gritava o oleiro. 

O juiz voltou-se para o poeta e perguntou-lhe serenamente: "Como justifica o seu estranho proceder?" 

"Senhor juiz, o caso é simples." - disse o poeta. 

"Há três dias eu passava pela frente da casa do oleiro Nagib, quando percebi que ele declamava um dos meus poemas. Notei com tristeza que os versos estavam errados. Meus poemas eram mutilados pelo oleiro. 

Aproximei-me dele e ensinei-lhe a declamá-los da forma certa, o que ele fez sem grande dificuldade. 

No dia seguinte, passei pelo mesmo lugar e ouvi novamente o oleiro a repetir os mesmos versos de forma errada. 

Cheio de paciência tornei a ensinar-lhe a maneira correta e pedi-lhe que não tornasse a deturpá-los. 

Hoje, finalmente, eu regressava do trabalho quando, ao passar diante da casa do oleiro, percebi que ele declamava minha poesia estropiando as rimas e mutilando vergonhosamente os versos. 

Não me contive. 

Apanhei uma pedra e parti com ela um de seus vasos. 

Como vê, meu comportamento nada mais é do que uma represália pela conduta do oleiro." 

Ao ouvir as alegações do poeta, o juiz dirigiu-se ao oleiro e declarou: "que esse caso, Nagib, sirva de lição para o futuro. Procure respeitar as obras alheias a fim de que os outros artistas respeitem as suas. 

Se você equivocadamente julgava-se no direito de quebrar o verso do poeta, achou-se também o poeta egoisticamente no direito de quebrar o seu vaso." 

E a sentença foi a seguinte: "determino que o oleiro Nagib fabrique um novo vaso de linhas perfeitas e cores harmoniosas, no qual o poeta Fauzi escreverá um de seus lindos versos. Esse vaso será vendido em leilão e a importância obtida pela venda deverá ser dividida em partes iguais entre ambos." 

A notícia sobre a forma inesperada como o sábio juiz resolveu a disputa espalhou-se rapidamente. 

Foram vendidos muitos vasos feitos por Nagib adornados com os versos do poeta. Em pouco tempo Nagib e Fauzi prosperaram muito. Tornaram-se amigos e cada qual passou a respeitar e a admirar o trabalho do outro. 

O oleiro mostrava-se arrebatado ao ouvir os versos do poeta, enquanto o poeta encantava-se com os vasos admiráveis do oleiro. 


Cada ser tem uma função específica a desenvolver perante a sociedade. Por isso, há grande diversidade de aptidões e de talentos. 

Respeitar o trabalho e a capacidade de cada um possibilita-nos aprender sobre o que não conhecemos e aprimorar nossas próprias atividades. 

Respeito e colaboração são ferramentas valiosas para o desenvolvimento individual e coletivo.


"O livro de Aladim", de Malba Tahan, páginas 50 e 53, Editora Record, 2001

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Para Falar a Verdade

Quando Bertolt Brecht escreveu — "a verdade é filha do tempo e não da autoridade" — denunciava o esforço autoritário de impor dogmas que não resistem à cobrança mais radical de todas. As verdades cujo prazo de validade se esgota em alguns anos são mentiras camufladas, manipulação da linguagem, arremedos de verdade que, como tais, causam medo, e não alegria.

Conhecer gera prazer. O prazer intelectual de analisar, compreender, sintetizar, rever, concluir, ampliar... é um dos prazeres mais intensos já experimentados pelo ser humano. Conhecer significa buscar a verdade, falar a verdade, revisitar a verdade, sem pagar nenhum tributo a modas fugazes, a preferências pessoais ou a interesses políticos — conhecer é buscar e encontrar o que das coisas, ou, como dizia Guimarães Rosa numa frase enigmática: o quem das coisas.

Conhecer é encontrar. Encontrar uma verdade exige método. E talvez um dos métodos mais resistentes ao tempo (e por este confirmado) seja o adotado por um frade do século XIII, Tomás de Aquino, que consiste em apresentar frases de autores consagrados, entendê-las e contestá-las com todo o rigor, e chegar a novas verdades, sem se preocupar em agradar gregos ou árabes, cristãos ou pagãos, agostinianos ou dominicanos, até mesmo tomistas ou anti-tomistas. Seu único desejo é detectar, verbalizar a verdade.

Que simplesmente pense.

Conta-se que Pôncio Pilatos, diante de Cristo, fez a famosa pergunta (Quid est veritas?) nunca respondida. Mas existe uma verdade oculta nas palavras latinas. Com as mesmas letras da frase acima, Cristo teria deixado implícita a resposta demolidora: Est vir qui adest, ou seja: é o homem que está na tua presença.


Para finalizar reflita...

"Perguntei a um sábio,
a diferença que havia entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível, a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas, a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração".
William Shakespeare


Ótimo 2014.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

História dos dois videntes

Pressentindo que seu país em breve iria mergulhar numa guerra civil, o sultão chamou um dos seus melhores videntes, e perguntou-lhe quanto tempo ainda lhe restava de vida.
- Meu adorado mestre, o senhor viverá o bastante para ver todos os seus filhos mortos.
Num acesso de fúria, o sultão mandou imediatamente enforcar aquele que proferira palavras tão aterradoras. Então, a guerra civil era realmente uma ameaça!
Desesperado, chamou um segundo vidente.
- Quanto tempo viverei? - perguntou, procurando saber se ainda seria capaz de controlar uma situação potencialmente explosiva.
- Senhor, Deus lhe concedeu uma vida tão longa, que ultrapassará a geração dos seus filhos, e chegará a geração dos seus netos.
Agradecido, o sultão mandou recompensá-lo com ouro e prata.
Ao sair do palácio, um conselheiro comentou com o vidente:
- Você disse a mesma coisa que o adivinho anterior. Entretanto, o primeiro foi executado, e você recebeu recompensas. Por que?
- Porque o segredo não está no que você diz, mas na maneira como diz. Sempre que precisar disparar a flecha da verdade, não esqueça de antes molhar sua ponta num vaso de mel.