sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Meio Termo


Certo dia, alguns candidatos a discípulos procuraram o Mullá e pediram-lhe que lhes fizesse uma palestra.
— "Muito bem" — disse ele —, "sigam-me até o salão, do outro lado da praça, onde existe espaço para eu falar a todos vocês.".
Obedientes, eles se alinharam atrás de Nasrudin, que montou no burro às avessas, e começou a afastar-se.
A princípio, os jovens se sentiram confusos, depois se lembraram de que não deviam contestar o menor gesto do Mullá. Finalmente, reconheceram-se incapazes de suportar por mais tempo as zombarias dos transeuntes.
Percebendo-lhes o embaraço, o Mullá se deteve e olhou-os fixamente. O mais atrevido dentre os rapazes aproximou-se:
— "Mulla, não compreendemos direito por que o senhor montou nesse burro às avessas."
— "É muito simples" — replicou o Mullá. — "Vejam bem, se vocês andassem à minha frente, seria uma desconsideração a mim. Por outro lado, e se eu lhes desse as costas, seria uma desconsideração a vocês. Esse é o único meio-termo possível".
Autor desconhecido

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Tesouro Inestimável

Era uma vez um andarilho muito sábio que vagava de vila em vila pedindo esmolas e compartilhando os seus conhecimentos nas praças e nos mercados.
Ele estava em uma praça em Akbar quando um homem chegou perto dele e disse:
- "Ontem, uma mago muito poderoso me disse que aqui nesta praça eu encontraria um mendigo, que apesar de sua miserável aparência me daria um tesouro de valor inestimável e que isto mudaria completamente a minha vida. Quando vi você percebi de imediato que era o homem que eu procurava. Por favor, me dê o seu tesouro".
O mendigo olhou para ele sem falar nada, enfiou a mão em um alforje de couro bem desgastado e em seguida estendeu a mão para o homem, dizendo:
- "Deve ser isto então!" Entregando-lhe um diamante enorme.
O outro levou um grande susto e exclamou:
- "Mas! Esta pedra deve ter um valor enorme!"
- "É mesmo? Pode ser. Eu a encontrei no bosque." Disse o mendigo.
- "Muito bem, quanto devo dar por ela?
- "Nada! Para mim ela não serve. Não preciso dela. Se ela lhe serve, leve-a. Não foi isto que o mago lhe disse?". Perguntou o mendigo.
- "Sim, foi isto que ele me disse. Obrigado". Muito confuso, o homem guardou a pedra e foi embora.
Meia hora mais tarde ele voltou. Procura o mendigo na praça e encontrando-o diz:
- "Tome sua pedra e me dê o tesouro".
- "Não tenho nada para lhe dar", disse o mendigo.
- "Tem sim! Quero que me ensine como pôde abrir mão dela sem que isso o incomodasse".
O homem então passou anos ao lado do mendigo até que aprendeu o que era o desapego.
Autor desconhecido

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Uma lição do Meu Pai


Existe uma tendência natural para os negócios na minha família. Todos os sete filhos trabalharam na loja do meu pai, a “Nossa Loja de Móveis e Ferramentas”, em Mott, Dakota do Norte, uma pequena cidade nas planícies. Começamos fazendo pequenos serviços, como tirar o pó, arrumar as prateleiras e fazer pacotes, e mais tarde, começamos a atender os clientes. Trabalhando e observando, aprendemos que trabalhar significava mais do que fazer uma venda e sobreviver.
Uma lição eu guardei comigo. Aconteceu pouco antes do Natal. Eu estava na 8ª série e trabalhava todos os fins de tarde, arrumando a seção de brinquedos. Um garotinho de 5 ou 6 anos entrou na loja. Estava vestindo um casaco marrom surrado, com os punhos gastos. O cabelo estava despenteado, e tinha um redemoinho levantado que saía bem no meio da cabeça. Apenas um dos sapatos velhos e gastos tinha cadarço, e mesmo assim estava rasgado. Parecia ser pobre – pobre demais para poder comprar qualquer coisa. Olhava pela seção de brinquedos, pegava isto ou aquilo e depois, com cuidado, colocava de volta no seu devido lugar.
Papai desceu as escadas e foi até ele. Seus olhos azuis sorriram e as covinhas do rosto se tornaram visíveis, enquanto perguntava em que poderia ser útil. O garoto disse que estava procurando um presente de Natal para o irmão. Fiquei impressionada ao ver que papai o tratava com o mesmo respeito que a um adulto. Ele lhe disse para dar uma olhada com calma, e foi o que o garoto fez.
Depois de mais ou menos vinte minutos, o garotinho pegou cuidadosamente um avião de brinquedo, foi até meu pai e disse:
- Quanto custa, senhor?
- Quanto você tem? – papai perguntou.
O garotinho estendeu a mão suada de tanto segurar o dinheiro. Nela havia duas moedas de dez centavos, uma de cinco e duas de um – vinte e sete centavos. O avião de brinquedo custava três dólares e noventa e oito centavos.
- Isto é o suficiente – disse papai, fechando o negócio.
Ainda posso ouvir a resposta do meu pai. Enquanto fazia o pacote, pensei sobre o que tinha visto. Enquanto o garotinho saía da loja, não notei o casaco sujo e surrado, o cabelo despenteado ou o único cadarço rasgado. O que vi foi uma criança radiante segurando um tesouro.
LaVonn Steiner
Do livro: Espírito de Cooperação no Trabalho

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Saber escolher!


Certa vez Nasrudin se viu em grandes apuros. Em uma viagem através de um país estranho foi confundido com um malfeitor foragido da justiça. Foi preso e condenado à morte.

Nasrudin quase não teve tempo de acreditar no que acontecia. Quando enfim percebeu a gravidade da situação, colocou sua intuição no sentido de se livrar daquilo. A forma, ele nem imaginava.
Como era comum naquele país, o condenado tinha o direito de satisfazer a sua última vontade.
Quando foi perguntado qual era a sua última vontade, Nasrudin disse:
"Escolher a forma da minha morte!"
O Juiz disse a Nasrudin: "Você foi condenado à morte e a forma como isso se dará não é relevante na questão. De que forma você quer morrer?"
Nasrudin, aliviado, respondeu:
"De velho!"
Autor desconhecido

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Ser amigo

O sol entrava pelas janelas da sala de aula e ia brincar nos cabelos das crianças. Às vezes projetava uma mão na folha de papel, fazendo uma engraçada sombra. E era uma tentação para os pequenos. Alguns às escondidas, pegavam um lápis e desenhavam sobre a folha, enquanto a professora ditava: Primavera, nome de Estação, como se escreve, Marco? Marco acordava então das suas divagações de luz e de sombra, e respondia:
— Com letra maiúscula, professora.
A professora continuava… Gildinha, Joãozinho, Toninho… Venham fazer um trabalho de grupo. E Marcos pensava: e eu? E eu por que sou só Marcos e não Marquinho? E ficava pensando… talvez o meu nome não dê jeito… Mas ficava triste, sentia que para ele não havia tanta ternura. Aquelas duas sílabas bem marcadas do seu nome o feriam constantemente e ele sentia-se só… ele que nem sequer tinha irmãos.
Chegou a hora do recreio. Uma manhã banhada pela luz do sol. Os passarinhos chilreavam contentes, ostentando a sua bela plumagem e entoando doces trinados. As crianças brincavam tirando das suas mochilas, saborosos lanches que as mães tinham arrumado cuidadosamente. E brincavam, riam, pulavam. De repente, junto ao muro da escola, parou uma pobre menina, suja, com um irmãozinho no colo…
— Como te chamas? — perguntou Marcos.
— Sílvia — respondeu a menina embalando o irmãozinho que chorava.
Marcos pensou: — também ela não era Silviazinha.
— Queres pão?
— Quero.
Marcos partilhou a sua merenda com Sílvia e ficaram amigos. Todos os dias a menina aparecia, todos os dias Marcos partilhava com ela a sua merenda e a menina trazia-lhe uma flor silvestre, que ele guardava cuidadosamente entre as folhas do seu livro. Marcos pensava que a vida era cheia de contrastes de luz e de sombras… Mas também pensou que a amizade e o amor estão nos atos e não nas palavras, que não é por um simples inho ou inha que há mais amor. E, desse dia em diante, sentiu-se mais feliz.
Maria José Craveiro R. Valente
Do livro: O meu mundinho