quinta-feira, 24 de setembro de 2015

“Toma Especial Cuidado de Tua Família”

Neal A. Maxwell
Of the Quorum of the Twelve Apostles

Neal A. Maxwell
Pais e avós, examinai vossos planos e prioridades, a fim de vos assegurardes de que os relacionamentos primordiais da vida recebam atenção primordial!
Nos últimos dias, com “toda a Terra . . . em agitação” (D&C 88:91 ) o evangelho restaurado de Jesus Cristo provê coisas essenciais, inclusive a preciosa perspectiva de se ver “as coisas como realmente são”. (Jacó 4:13.)
O eminente historiador Will Durant escreveu o seguinte sobre as necessidades humanas: “Para captarmos o valor e a perspectiva de coisas transitórias ( . . . ) precisamos entender que as coisas pequenas são pequenas e as coisas grandes são grandes, antes que seja tarde demais; queremos ver as coisas agora como elas serão eternamente—à luz da eternidade”. 1
O poder esclarecedor do evangelho fornece-nos uma perspectiva muito maior da função da família.
Antes de citar alguns desafios enfrentados pela vida familiar, pensai, irmãos, como, na prática, viver sem Deus no mundo nos leva à falta de uma perspectiva coerente. Se não houvesse verdades eternas, que princípios os mortais usariam como orientação? Se não devemos prestar contas a Deus, a quem, no final, deveremos prestá-las? Ademais, se nada é realmente errado, ninguém é realmente responsável. Se não houver limites fixos, não poderá haver excessos? Por que deveríamos surpreender-nos, então, com tantos resultados inquietantes, inclusive a falta de sentido comunitário, quando todo homem faz aquilo que é “direito aos seus olhos” (Juízes 17:26;21:25) e não busca a justiça de Deus, mas, sim, “segue o seu próprio caminho”? (D&C 1:16 .)
Refleti, por exemplo, sobre quão inoperantes os Dez Mandamentos são em tantas vidas. Hoje, matar, roubar e prestar falso testemunho são ações que ainda carregam alguns estigmas sociais e sanções legais, mas as sanções foram totalmente banidas no que se refere a imoralidade sexual, Dia do Senhor, honrar pai e mãe e tomar o nome do Senhor em vão. Parte deste declínio representa o resultado amargo do relativismo ético, a filosofia da escolha baseada na opinião da maioria, sem refletir verdades divinas estabelecidas, mas refletindo, simplesmente, a moral do momento. Não é de admirar que Ortega Y. Gassett nos tenha advertido com sabedoria: “Se a verdade não existe, o relativismo não pode se levar a sério”. 2
Observem diversas tendências terríveis que, caso não sejam corrigidas, produzirão um choque ainda pior com suas conseqüências.
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    Em dez anos, metade das crianças nascidas nos Estados Unidos serão ilegítimas. 3
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    É crescente o número de crianças que não têm pais atuantes.
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    Setenta por cento dos delinqüentes juvenis vêm de lares sem pai. 4
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    Menos da metade das crianças nascidas hoje viverão toda a sua infância com o pai e a mãe. 5
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    Um quarto dos adolescentes contrai uma doença transmitida sexualmente antes de terminarem o segundo grau. 6
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    Os pais ou o único genitor de cinqüenta por cento das crianças dos Estados Unidos com menos de seis anos de idade trabalham fora. 7
O pai Léhi uma vez descreveu a si mesmo como “um pai trêmulo” (2 Néfi 1:14). Hoje temos pais trêmulos e também avós! Algumas das famílias da atualidade já estão num deserto pior que a família do pai Léhi. Famílias saudáveis, tradicionais, tornam-se, cada vez mais, uma espécie ameaçada! Talvez um dia as famílias até recebam a mesma atenção que os animais ameaçados de extinção.
Com o declínio do papel dos pais, aumenta a necessidade de policiamento. Jamais haverá policiais em quantidade suficiente, se houver deficiência de pais ativos! Da mesma forma, não haverá prisões em número suficiente se não houver um número suficiente de lares saudáveis.
Como todos sabemos, fala-se muito a respeito de valores familiares, mas a retórica, por si só, não pode produzir reformas. Com um sentimento de nostalgia, muitos sonham com a vida familiar de antigamente. Consideram o declínio da família lamentável, mas irreversível. Outros, sinceramente preocupados com as devastadoras conseqüências sociais, ocupam-se em represar a correnteza, mesmo quando um represamento excessivo pode destruir o pouco que resta das hortas familiares. Alguns consideram a família uma instituição que deve ser drasticamente redefinida ou até eliminada.
Não há famílias perfeitas, seja no mundo ou na Igreja, mas há muitas famílias boas. Também aplaudo espiritualmente esses pais heróicos—que ficaram sozinhos devido a viuvez ou divórcio —que estão justa e zelosamente ocupados em criar e sustentar sua família, geralmente lutando contra a maré.
Ora, em alguns lares as coisas vão desgraçadamente mal, mas esses fracassos não são razão para denegrirmos ainda mais a instituição da família. Devemos fazer correções no curso, consertar os vazamentos—e não abandonar o navio!
Muito do desespero e da violência atual decorre de atitudes doentias em relação a qualquer autoridade, inclusive nas famílias. Há trinta e cinco anos, um comentarista de visão da BBC disse, preocupado, que “estamos produzindo adultos que têm uma atitude menos clara e coerente em relação à autoridade do que nós próprios, e que serão ainda menos capazes que seus pais de criar filhos com uma atitude sadia em relação à autoridade; assim, uma insidiosa avalanche pode estar-se formando, em ritmo acelerado, de geração em geração”. 8
O “ritmo acelerado” aumenta com a ocorrência, em apenas alguns anos (ver Morôni 9:12), de profundas mudanças sociais.
Infelizmente, é mais fácil louvar-se a família do que criar uma família bem sucedida. É mais fácil falar, como estou fazendo, dos valores da família, do que implementá-los. É mais fácil regozijar-nos com nossas ricas lembranças de uma boa família, do que proporcionar à nova geração suas próprias lembranças positivas.
As doutrinas severas, contudo, insistem em que façamos algumas perguntas severas: Como pode uma nação alimentar os valores da família sem valorizar e proteger a família na sua política governamental? Como podemos valorizar a família sem valorizar o papel dos pais? E como podemos valorizar o papel dos pais se não valorizamos o casamento? Como pode haver “amor no lar” sem amor no casamento? Tantos atrativos egoístas afastam os pais e as mães uns dos outros e também de seus filhos!
Por outro lado, muitos são os pontos da restauração que estão baseados em princípios fundamentais relativos à família, incluindo o selamento de famílias eternas. Os santos dos últimos dias, portanto, não têm escolha a não ser tomar a defesa da instituição da família sempre que surgir a oportunidade, mesmo que sejamos mal interpretados, que se ofendam conosco ou que nos ignorem.
Afinal, as famílias mortais antecederam a fundação de nações e as famílias existirão depois que o Todo-Poderoso puser “fim completo a todas as nações”. (D&C 87:6 .) Para os santos dos últimos dias, embora isso deva ser feito à maneira do Senhor, todo ano deve ser o Ano da Família. Como santos dos últimos dias, porém, precisamos ter um desempenho melhor em nossas famílias—muito melhor! É preciso haver menos apertos de mão e mais abraços amorosos em nossas famílias.
De todo o trabalho de “aperfeiçoamento dos santos”, nenhum se compara ao trabalho realizado no seio de famílias saudáveis. O Presidente David O. McKay ensinou: “O lar é a base de uma vida reta e nada pode substituí-lo nem cumprir suas funções essenciais”. 9 Às vezes, até certas atividades extracurriculares da Igreja, se realizadas sem bom-senso, podem, não intencionalmente, prejudicar a vida em família.
Depois que Jesus ressuscitado ensinou os nefitas, Ele disse: “Ide para vossas casas, meditai sobre estas coisas por mim faladas” e orai e preparai-vos “para amanhã” (3 Néfi 17:3). Jesus não disse que fossem para seus clubes, reuniões comunitárias, nem mesmo para as capelas da estaca!
O cumprimento de todos os deveres familiares inclui ensinar os filhos a “compreender a doutrina do arrependimento, da fé em Cristo, o Filho do Deus vivo” (D&C 68:25 ). Que visão diferente do papel dos pais—diferente da visão do mundo. Marie Winn lamentou em Children without Childhood (Crianças sem Infância) a tendência emergente, mas injustificada, de tratar as crianças como se elas tivessem capacidade de enfrentar as experiências ilimitadas dos adultos. 10
Irmãos, talvez não consigamos modificar essas tendências, mas podemos recusar-nos a participar delas.
Quando os pais não conseguem transmitir testemunho e teologia associados à decência, a família fica a apenas uma geração do declínio espiritual, tendo perdido o seu sabor. A lei da colheita em nenhum lugar é mais evidente e mais inexorável do que nos jardins da família!
Além da sociabilidade amorosa que temos na família, sociabilidade essa que um dia será “unida com a glória eterna”, salientamos repetidamente a disponibilidade de recursos como as orações familiares, as noites familiares e o estudo das escrituras em família (D&C 130:2 ). Ademais, a revelação pessoal a respeito de nossas funções como pais pode trazer-nos uma orientação e uma tranqüilidade sob medida.
A aplicação de remédios básicos levará algum tempo e não consertará tudo imediatamente. O que poderia ser mais básico, entretanto, que “amor no lar”, quando nos Estados Unidos são registradas quatro milhões de queixas de violência doméstica por ano, rivalizando com o número de nascimentos no país!11 A violência nos Estados Unidos mata hoje “o equivalente a uma sala de aula cheia de crianças a cada dois dias”. 12
Diante de tais desafios, necessitamos de mais mães que conheçam a verdade, cujos filhos não duvidem do que elas sabem (ver Alma 56:48). Meus filhos e meus netos foram abençoados com mãe e avó desse tipo. Precisamos de um número maior de pais bondosos e atenciosos, que também carreguem a autoridade do exemplo. Outros pais deviam ser lembrados como a filha de um profeta, Helen Lee Goates, se lembra dos seus: “Um pai terno, escondido sob sua firmeza, e uma mãe firme, escondida sob sua ternura”. 13
Numa família saudável, antes de tudo podemos aprender a ouvir, perdoar, elogiar e louvar as realizações uns dos outros. Na família podemos também conter nosso ego, trabalhar, arrepender-nos e amar. Em famílias com uma perspectiva espiritual, o ontem não precisa manter o amanhã como refém. Se às vezes agimos tolamente, a família amorosa sabe que essa não será nossa última apresentação—a cortina ainda não se fechou.
Para alguns, esses recursos e coisas semelhantes podem parecer simples demais para curar uma sociedade afligida por tantas atribulações. Na antiga Israel, também se desdenharam os recursos simples da providência divina, e eles pereceram (ver 1 Néfi 17:41).
Obviamente, nossos valores familiares espelham nossas prioridades pessoais. Devido à gravidade das condições atuais, estariam os pais dispostos a renunciar a apenas uma coisa externa, oferecendo esse tempo e talento à família? Pais e avós, examinai vossos planos e prioridades, a fim de vos assegurardes de que os relacionamentos primordiais da vida recebam atenção primordial! Até mesmo Brigham Young, tão dedicado, certa vez ouviu do Senhor: “(Toma) especial cuidado de tua família”. (D&C 126:3 .) Às vezes, são os mais conscienciosos que mais necessitam desta mensagem!
A sociedade deve concentrar-se nas fontes—a família—onde os valores podem ser ensinados, vividos, experimentados e perpetuados. De outra forma, irmãos, testemunharemos mais dilúvios, com mais corrupção e violência. (Ver Gên. 6:11-12; Mat. 24:37.)
Se o conluio dos provocadores de chuvas prevalecer, contudo, as chuvas continuarão a descer e os dilúvios a cair. As represas e os sacos de areia não conseguirão deter os vagalhões. Um número cada vez maior de famílias, e até de nações, se construídas sobre a areia secular em vez de sobre o granito do evangelho, sofrerão.
À medida que crescer o número de famílias problemáticas, seus fracassos entulharão as escolas e as ruas. Mesmo agora, o panorama não é bonito.
As nações em que o idealismo tradicional ceder terreno ao cinismo moderno, irão perder as bênçãos do céu, de que tão urgentemente necessitam. Essas nações também perderão legitimidade aos olhos de seus cidadãos.
Em meio à Babel de receitas de “tantos tipos de vozes do mundo”, a perspectiva de socorro e redenção requer que saibamos quem Jesus Cristo é, como Ele viveu e pelo que Ele morreu. (I Coríntios 14:10; ver também João 10:27.) Afinal, foi Jesus quem nos deu a perspectiva dominante com relação às famílias.
Portanto, ao nos aproximarmos do final deste dia de Páscoa, quão adequado é que meditemos sobre Jesus e a expiação—Jesus curvado e ensangüentado no Getsêmani, transformando a gramática da morte. Até Getsêmani e o Calvário, a morte era um rígido ponto de exclamação! Então também a morte se curvou—transformando-se numa simples vírgula!
Louvado seja Jesus, por carregar então os pecados e as dores de toda “a família de Adão”. (2 Néfi 9:21;2:20.) Esforcemo-nos aqui e agora para cuidarmos de nossa família como Jesus cuidou da Sua, “sim, a família de toda a terra”. (2 Néfi 2:20.) Para isso oro em nome de Jesus Cristo. Amém.

Ocultar Referências 

  1.  
    1.  The Story of Philosophy, (New York: Simon and Shuster, 1927), p. 1.
  2.  
    2.  The Modern Theme (New York: Harper & Row, 1961) conforme citado em Duncan Williams, Trousered Apes (New Rochelle, N.Y.: Arlington House, 1971), p.69.
  3.  
    3.  Ver Presidente Bill Clinton, “State of the Union Address”, Especial da CNN, 25 de janeiro de 1994, p. 3.
  4.  
    4.  Wall Street Journal, 18 de novembro de 1993, p. A-18.
  5.  
    5.  Barbara Dafoe Whitehead, Atlantic Monthly (Abril 1993), p. 47.
  6.  
    6.  Research Briefs from Utah Foundation, 16 de julho de 1993, p. 1.
  7.  
    7.  Ibid.
  8.  
    8.  Citado em “The Listener”, 12 de fevereiro de 1959.
  9.  
    9.  Family Home Evening Manual (Salt Lake City: The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, 1965) prefácio.
  10.  
    10.  Ver Marie Winn, Children without Childhood (New York: Penguin, 1983), p. 5.
  11.  
    11.  Ver “Callers Weigh in on Domestic Abuse”, CNN, 6 de nov. 1993; The World Almanac (Mahwah, N.J.: Funk & Wagnalls, 1994) p. 954
  12.  
    12.  Deseret News, 20 de janeiro de 1994, p. A-1.
  13.  
    13.  That My Family Should Partake (Salt Lake City: Deseret Book Co., 1974), p. 56.

https://www.lds.org/general-conference/1994/04/take-especial-care-of-your-family?lang=por

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Céu de sonho


Mullá Nasrudin sonhou que estava no céu e que tudo a sua volta era muito bonito e fácil. Só encontrava beleza e não precisava fazer esforço para nada, bastava desejar uma coisa - qualquer coisa - e ela aparecia.
Nasrudin tinha tudo o que queria e estava super satisfeito. Os milagres aconteciam sempre que desejava. Foi bom demais por algum tempo, até que ele começou a se entediar, deixou de achar graça naquela vida. Aí resolveu procurar algum problema, qualquer situação que lhe aborrecesse ou até lhe fizesse ficar deprimido, porque já não suportava mais tanta maravilha.
Não encontrou nada que lhe perturbasse. Passou a procurar um trabalho para fazer, uma responsabilidade qualquer e não havia nada, porque tudo era perfeito.
No seu sonho Mullá Nasrudin gritou: - Não aguento mais! Estou cheio de não fazer nada e de ter tudo! Preferiria estar no inferno!
E uma voz lhe respondeu:
- E onde é que você pensa que está?
Histórias de Nasrudin

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A Dois Dedos do Afogamento


Alguns amigos convidaram Nasrudin para um piquenique. O bom humor imperava, e o almoço sobre a relva foi dos mais perfeitos. Mas a animação do grupo foi interrompida por um incidente que fez todo mundo correr em direção a um rio próximo.A
Um desconhecido tinha escorregado e estava dentro da água, profunda e lodosa naquele ponto. De todos os lados correram em seu socorro.
– Dê sua mão! Dê sua mão! – gritavam-lhe.
Nenhuma reação da parte do infeliz, que não sabia nadar e tudo que fazia era engolir água.
Estava a dois dedos de afogar-se quando Mulla apareceu. Reconheceu o sujeito assim que o viu.
– Afastem-se todos e deixem comigo! – gritou, dirigindo-se à multidão.
Estendeu a mão direita para o homem que se debatia e lhe disse:
– Pegue minha mão!
Num rápido impulso, o desconhecido agarrou-se à mão estendida de Mulla, que o tirou do rio.
Nesse meio tempo, os curiosos tinham-se aglomerado e perguntavam em voz alta:
– Explique-nos, Mulla! Por que ele não nos deu a mão, mas agarrou a sua imediatamente?
– É muito simples – respondeu Nasrudin. – Eu o conheço há muito tempo: é um sujeito de uma avareza sórdida. Então vocês não sabem que os avarentos costumam tomar, e não dar? Foi por isso que não lhe pedi que me desse a mão, mas que pegasse a minha.

domingo, 30 de agosto de 2015

Como um Vaso Quebrado

Do Quórum dos Doze Apóstolos

Qual é a melhor maneira de reagir quando nós ou nossos entes queridos enfrentamos problemas mentais ou emocionais?
O Apóstolo Pedro escreveu que os discípulos de Jesus Cristo devem ser mutuamente “compassivos”.1 Nesse espírito gostaria de falar àqueles que padecem de alguma forma de doença mental ou distúrbio emocional, sejam essas aflições leves ou severas, de breve duração ou persistentes por toda a vida. Sentimos a complexidade desses assuntos quando vemos profissionais falarem de neuroses e psicoses, de predisposições genéticas e defeitos nos cromossomos, de bipolaridade, de paranoia e esquizofrenia. Por mais assustadoras que sejam, essas aflições fazem parte da realidade da vida, e não se deveria ser mais vergonhoso admiti-las do que admitir uma batalha contra a pressão alta ou o surgimento súbito de um tumor maligno.
No empenho de obter um pouco de paz e compreensão nesses difíceis assuntos, é essencial lembrar que estamos vivendo, e escolhemos viver, num mundo decaído, no qual, por propósitos divinos, nossa busca pela divindade será testada e posta à prova muitas e muitas vezes. A maior garantia no plano de Deus é que um Salvador nos foi prometido, um Redentor que por meio de nossa fé Nele nos elevaria vitoriosos desses testes e dessas provações, embora o custo para isso fosse inimaginável tanto para o Pai, que O enviou, quanto para o Filho, que veio. É apenas nossa gratidão por esse amor divino que torna nosso próprio sofrimento, que é menor, a princípio suportável, depois compreensível e, por fim, redentor.
Deixo agora as doenças assustadoras que mencionei e me concentro no “transtorno depressivo maior”, ou como é mais comumente conhecido, “depressão”. Quando falo disso, não me refiro a um dia ruim, ao prazo final do Imposto de Renda ou de outros momentos desanimadores que todos temos. Todos enfrentamos ansiedade ou desânimo de tempos em tempos. O Livro de Mórmon diz que Amon e seus irmãos ficaram deprimidos numa época muito difícil,2 e muitos de nós também podemos ficar. Mas estou falando hoje de algo muito mais sério, uma aflição tão severa que restringe significativamente a capacidade de uma pessoa funcionar plenamente, um abismo tão profundo na mente que ninguém pode sugerir de modo responsável que ele sem dúvida desapareceria se as vítimas simplesmente endireitassem os ombros e pensassem de modo mais positivo — embora eu seja um vigoroso defensor de ombros firmes e pensamento positivo!
Não, essa escuridão da mente e do espírito é mais do que simples desânimo. Vi isso acontecer a um homem absolutamente angelical quando sua amada esposa, com quem estivera casado por 50 anos, faleceu. Vi isso acontecer a mães jovens eufemisticamente rotuladas de portadoras de depressão pós-parto. Vi isso acontecer com estudantes ansiosos, militares veteranos e avós preocupadas com o bem-estar de seus filhos crescidos.
E já vi isso acontecer com jovens pais tentando prover o sustento de sua família. Eu mesmo já tive a terrível experiência de passar por isso. Numa certa época de nossa vida de casados, quando os temores financeiros colidiram com um cansaço fatigante, o impacto psíquico que senti foi tão inesperado quanto real. Com a graça de Deus e o amor de minha família, continuei ativo e trabalhando, mas mesmo depois de todos esses anos continuo a ter uma grande compaixão por outros que se veem afligidos de modo mais crônico ou profundo com tamanha tristeza como eu fui. Qualquer que seja o caso, todos adquirimos coragem ao ver aqueles que, nas palavras do Profeta Joseph, “[vasculharam e contemplaram] o profundo abismo”,3 e o superaram, entre os quais estão Abraham Lincoln, Winston Churchill e o Élder George Albert Smith, este sendo um dos homens mais gentis e cristãos de nossa dispensação, que combateu uma depressão recorrente por alguns anos antes de se tornar o universalmente amado oitavo profeta e Presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Então, qual é a melhor maneira de reagir quando nós ou nossos entes queridos enfrentamos problemas mentais ou emocionais? Acima de tudo, nunca perca a fé no Pai Celestial, que nos ama mais do que podemos compreender. Como o Presidente Monson disse sábado passado de modo tão tocante às irmãs da Sociedade de Socorro: “Esse amor nunca muda. (…) Está lá para vocês quando estiverem tristes ou felizes, desanimadas ou esperançosas. O amor de Deus está lá para vocês, quer sintam que o mereçam ou não. Ele está sempre lá, simples assim”.4 Nunca, jamais duvidem disso, e nunca endureçam o coração. Com fé sigam as práticas devocionais provadas pelo tempo que convidam o Espírito do Senhor para sua vida. Busquem o conselho daqueles que possuem as chaves para seu bem-estar espiritual. Peçam e valorizem bênçãos do sacerdócio. Tomem o sacramento todas as semanas e apeguem-se às promessas aperfeiçoadoras da Expiação de Jesus Cristo. Acreditem em milagres. Tenho visto tantos milagres acontecerem quando tudo indica que não há mais esperança. Sempre há esperança. Se esses milagres não acontecerem logo ou plenamente ou aparentemente nunca, lembrem-se do próprio exemplo angustiante do Salvador: se a taça não passar, beba-a e seja forte, confiando que dias melhores virão.5
A fim de prevenir a doença, sempre que possível, estejam atentos aos indicadores de estresse em sua própria vida e na de outros que vocês possam ajudar. Assim como fazem com seu carro, estejam alertas à elevação de temperatura, ao excesso de velocidade e ao baixo nível de combustível no tanque. Quando enfrentarem uma “depressão por exaustão”, façam os ajustes necessários. A fadiga é nosso inimigo comum — portanto, diminuam o ritmo, revigorem-se e reabasteçam. Os médicos nos garantem que, se não reservarmos um tempo para nos sentirmos bem, sem dúvida depois teremos que despender tempo passando mal.
Se as coisas continuarem a ser debilitantes, procurem o conselho de pessoas de confiança, com formação profissional comprovada, competência e bons valores. Sejam honestos com elas sobre sua história e suas dificuldades. Em espírito de oração e de modo responsável, ponderem o conselho delas e as soluções que receitarem. Se vocês tiverem apendicite, Deus espera que procurem uma bênção do sacerdócio e também o melhor atendimento médico disponível. O mesmo se dá com os distúrbios emocionais. Nosso Pai Celestial espera que usemos todos os maravilhosos dons que Ele concedeu nesta maravilhosa dispensação.
Se vocês forem a pessoa aflita ou o cuidador dela, procurem não se sobrecarregar com o tamanho da tarefa. Não tenham a pretensão de consertar todas as coisas, mas consertem o que puder. Se suas vitórias forem pequenas, fiquem gratos por elas e sejam pacientes. Dezenas de vezes nas escrituras, o Senhor ordena alguém a aquietar-se e a esperar.6 A perseverança paciente em algumas coisas faz parte de nossa educação mortal.
Para aqueles que cuidam de outros, em seu dedicado empenho de ajudar alguém a recobrar a saúde, não destruam a sua própria. Sejam sábios em todas as coisas. Não corram mais rápido do que as suas forças permitam.7 Além do que vocês forem ou não capazes de prover, ofereçam suas orações e seu “amor não fingido”.8 “A caridade é sofredora e é benigna (…) [ela] tudo sofre, (…) tudo espera, tudo suporta. (…) A caridade nunca falha.”9
Lembremos também que, ao longo de toda doença ou problema difícil, ainda há muitas coisas na vida pelas quais podemos ter esperança e gratidão. Somos infinitamente mais do que nossas limitações e nossas aflições! Stephanie Clark Nielson e sua família têm sido nossos amigos por mais de 30 anos. No dia 16 de agosto de 2008, o avião em que estavam Stephanie e seu marido, Christian, caiu e incendiou-se de forma tão devastadora que os familiares da Stephanie só foram capazes de identificá-la pelo esmalte das unhas dos pés. Quase não havia esperança de que ela sobrevivesse. Após três meses de coma profundo, ela acordou e pode ver a si mesma. A isso sobreveio uma depressão horrível e devastadora. Com quatro filhos menores de sete anos, Stephanie não queria que eles a vissem novamente. Ela sentia que seria melhor não continuar a viver. “Eu pensava que seria mais fácil”, disse-me ela certa vez em meu escritório, “se eles simplesmente se esquecessem de mim e eu sutilmente saísse da vida deles”.
Mas, por seu crédito eterno e pelas orações do marido, da família, dos amigos, de quatro lindos filhos e de um quinto filho que os Nielson tiveram há apenas 18 meses, Stephanie lutou até voltar do abismo da autodestruição para ser uma das mais populares “mamães blogueiras” dos Estados Unidos, declarando abertamente aos quatro milhões que seguem seu blog que seu “divino propósito” na vida é ser mãe e desfrutar de cada dia que lhe foi dado neste mundo maravilhoso.
Não importa qual seja sua provação, meus irmãos e irmãs, — mental, emocional, física ou outra qualquer — não tentem dar cabo ao precioso dom que receberam: a vida! Confiem em Deus. Agarrem-se a Seu amor. Saibam que um dia a alvorada surgirá brilhante e as sombras da mortalidade se dissiparão. Embora possamos nos sentir como um “vaso quebrado”, segundo o salmista,10 devemos nos lembrar de que esse vaso está nas mãos do divino oleiro. Mentes despedaçadas podem ser curadas assim como ossos e corações partidos. Enquanto Deus está operando tais reparos, o restante de nós pode ajudar, sendo misericordiosos, bondosos, sem julgamentos.
Presto testemunho da santa Ressurreição, aquela pedra angular inefável que é a dádiva da Expiação do Senhor Jesus Cristo! Assim como o Apóstolo Paulo, testifico que aquilo que foi plantado em corrupção será um dia levantado em incorrupção, e o que foi plantado em fraqueza por fim será levantado em poder.11 Presto testemunho do dia em que nossos entes queridos que sabemos que tiveram deficiências na mortalidade se erguerão diante de nós glorificados e grandiosos, admiravelmente perfeitos em corpo e mente. Que momento assombroso será! Não sei se ficaremos mais felizes por testemunhar esse milagre ou mais felizes por eles, ao vermos que estão plenamente perfeitos e “finalmente livres”.12 Até aquela hora, quando o dom perfeito de Cristo for evidente para todos nós, vivamos pela fé, perseverando na esperança e sendo “compassivos”13 uns com os outros é minha oração em nome de Jesus Cristo. Amém.

Ocultar Referências 

  1.  
    1. I Pedro 3:8.
  2.  
    2. Ver Alma 26:27; ver também Alma 56:16.
  3.  
    3. Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith, 2007, p. 279.
  4.  
    4. Thomas S. Monson, “Nunca Andamos Sozinhos”, A Liahona, novembro de 2013, p. 123, 124.
  5.  
    5. Ver Mateus 26:39.
  6.  
    6. Ver, por exemplo, Salmos 4:4; Doutrina e Convênios 101:16.
  7.  
    7. Ver Mosias 4:27.
  8.  
  9.  
    9. I Coríntios 13:4, 7–8; grifo do autor; ver tambémMorôni 7:45–46.
  10.  
    10. Salmos 31:12.
  11.  
    11. Ver I Coríntios 15:42–43.
  12.  
    12. “Free at Last”, em John W. Work, comp., American Negro Songs: 230 Folk Songs and Spirituals, Religious and Secular (1998), 197.
  13.  
    13. I Pedro 3:8.
  14. Fonte:https://www.lds.org/general-conference/2013/10/like-a-broken-vessel?lang=por

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Uma Lição de um Milhão de Dólares


Eu havia voado para Dallas com o único propósito de visitar um cliente. O tempo era de suma importância e meus planos eram ir e voltar para o aeroporto o mais rápido possível. Um táxi impecável parou. O motorista correu para abrir a porta do passageiro e certificou-se de que eu estava confortavelmente sentado antes de fechá-la. Quando se sentou atrás do volante, mencionou que o Wall Street Journal, cuidadosamente dobrado ao meu lado, era para o meu uso. Mostrou-me  então várias fitas de música e perguntou que tipo eu apreciava. Ora! Olhei ao meu redor para verificar se havia uma câmera do tipo Topa Tudo Por Dinheiro escondida. Você não faria o mesmo? Eu não podia acreditar no atendimento que estava recebendo.
-- Com certeza, você se orgulha bastante do seu trabalho -- disse para o motorista. -- Você deve ter uma história para contar.
Ele tinha.
-- Eu costumava trabalhar na Corporate America -- começou. -- Mas fiquei cansado de pensar que o melhor que eu podia fazer nunca seria bom o suficiente, rápido o suficiente ou devidamente valorizado. Decidi encontrar meu lugar na vida, onde pudesse sentir orgulho de ser o melhor que eu pudesse. Eu sabia que eu nunca seria um cientista, mas adoro dirigir carros, ser útil e sentir que fiz um bom trabalho no fim do dia.
Depois de avaliar seus recursos pessoais, decidiu ser motorista de táxi.
-- Não apenas um motorista de táxi comum -- continuou -- , mas  um motorista de táxi profissional. De uma coisa estou certo: para ser bom no meu trabalho eu poderia apenas corresponder às expectativas dos passageiros. Porém, para ser excelente no meu trabalho, tenho de superar as expectativas dos clientes. Gosto mais da sensação de ser "excelente" do que ficar apenas na média.
Será que lhe dei uma boa gorjeta? Pode apostar que sim. A Coporate America saiu perdendo, mas as pessoas que viajam saíram lucrando.