sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A Falta de Planejamento Causas Muitas Perdas

Em 1485, Ricardo III ocupava o trono da Inglaterra. Era uma época de instabilidades, e Ricardo teve que defender sua coroa mais de uma vez. Mas ele era um experiente veterano militar, um guerreiro ousado e sagaz, com um exército que tinha entre 8.000 e 10.000 soldados.

Naquele mesmo ano, um pretendente ao trono inglês, Henrique Tudor, Duque de Richmond, desafiou e confrontou Ricardo num lugar que deu nome à batalha ali travada: Campo Bosworth. Henrique, ao contrário de Ricardo, tinha pouca experiência de combate, e seu exército contava apenas com 5.000 soldados. Mas, a seu lado, ele tinha bons conselheiros: nobres que haviam participado de batalhas semelhantes, inclusive algumas contra Ricardo. Chegou a manhã da batalha, e tudo indicava que Ricardo sairia vitorioso.

Um famoso relato dramático resume os acontecimentos de 22 de agosto de 1485. Naquela manhã, o rei Ricardo e seus soldados prepararam-se para enfrentar o exército de Henrique. O vencedor da batalha seria o governante da Inglaterra. Pouco antes da batalha, Ricardo mandou um cavalariço ver se seu cavalo favorito estava pronto.
“Ponha rapidamente as ferraduras no cavalo”, ordenou o cavalariço ao ferreiro. “O rei quer cavalgar à frente de suas tropas.”

O ferreiro respondeu que isso teria de esperar. “Venho pondo ferraduras em todos os cavalos do exército do rei nos últimos dias”, disse ele, “e agora preciso de mais ferro”.

O impaciente cavalariço disse que não podia esperar. “Os inimigos do rei estão avançando neste exato momento, e temos que ir ao encontro deles no campo”, disse ele. “Use o que tiver.”

Seguindo as ordens, o ferreiro fez o melhor que pôde, providenciando quatro ferraduras a partir de uma barra de ferro. Depois de malhar as ferraduras, pregou três delas no cavalo. Ao tentar pregar a quarta ferradura, porém, deu-se conta de que não tinha pregos suficientes.

“Preciso de mais um ou dois pregos, e vai levar um tempo para malhá-los”, disse ao cavalariço.
O cavalariço, porém, não podia esperar mais. “Estou ouvindo as trombetas agora”, exclamou ele. “Não pode usar o que você tem?”

O ferreiro respondeu que faria o melhor possível, mas não poderia garantir que a quarta ferradura ficaria firme.
“Pregue-a”, ordenou o cavalariço. “E apresse-se, ou o rei Ricardo se zangará com nós dois.”
A batalha em breve teve início. Para reunir seus homens, Ricardo cavalgava de um lado para o outro no campo, lutando e incentivando os soldados com seu brado: “Avante! Avante!”

Quando Ricardo olhou para o outro lado do campo, porém, viu alguns de seus soldados batendo em retirada. Temendo que os outros soldados também começassem a fugir, partiu a galope na direção da linha desfeita para chamá-los de volta à luta. Mas, antes que Ricardo chegasse até eles, seu cavalo tropeçou e caiu, lançando o rei ao chão. Uma das ferraduras do cavalo, tal como temia o ferreiro, soltara-se durante o galope desesperado do rei.

Ricardo ergueu-se de um salto do chão enquanto seu cavalo galopava para longe. Ao ver o exército de Henrique avançando, Ricardo brandiu sua espada no ar e gritou: “Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!”
Mas era tarde demais. Naquela altura, os soldados de Ricardo fugiam de medo do exército de Henrique que avançava, e a batalha foi perdida. Desde aquela época, recita-se este provérbio:

Por falta de um prego, perdeu-se uma ferradura,
Por falta de uma ferradura, perdeu-se um cavalo,
Por falta de um cavalo, perdeu-se uma batalha,
Por causa de uma batalha, perdeu-se um reino,
Tudo isso por faltar um prego na ferradura.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Tornando o campo fértil

Um mestre encarregou o seu discípulo de cuidar do campo de arroz.
No primeiro ano, o discípulo vigiava para que nunca faltasse a água necessária. O arroz cresceu forte, e a colheita foi boa.
No segundo ano, ele teve a ideia de acrescentar um pouco de fertilizante. O arroz cresceu rápido, e a colheita foi maior.
No terceiro ano, ele colocou mais fertilizante. A colheita foi maior ainda, mas o arroz nasceu pequeno e sem brilho.
Então o mestre advertiu-o: - Se continuar aumentando a quantidade de adubo, não terá nada de valor no ano que vem.
Você fortalece alguém quando ajuda um pouco. Mas se você ajuda muito, pode enfraquecê-lo e até estragá-lo.
 

domingo, 29 de setembro de 2013

Metáfora da Semana: Um punhado de sal


"O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse.
- Qual é o gosto? - perguntou o Mestre.
- Ruim. - disse o jovem sem pensar duas vezes.
O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse junto com ele ao lago. Os dois caminharam em silêncio, e quando chegaram lá o mestre mandou que o jovem jogasse o sal no lago. O jovem então fez como o mestre disse.
Logo após o velho disse:
- Beba um pouco dessa água.
O jovem assim o fez e enquanto a água escorria do queixo do jovem o Mestre perguntou:
- Qual é o gosto?
- Bom! - o jovem disse sem pestanejar.
- Você sente o gosto do sal? - perguntou o Mestre.
- Não. - disse o jovem.
O Mestre então sentou ao lado do jovem, pegou em suas mãos e disse:
- A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende de onde a colocamos. Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido de tudo o que está a sua volta. É dar mais valor ao que você tem em detrimento ao que ao que você perdeu. Em outras palavras: É deixar de ser copo, para tornar-se um Lago."

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Traduzir-Se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
Ferreira Gullar

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Risco é o Governo

        














Anos atrás, em um outro país, o presidente estava diante do desafio de conseguir turbinar o crescimento. Políticos, economistas, jornalistas discutiam as  saídas e, como sempre, havia propostas para fazer isso por meio de ações mais intensas do governo.

O presidente, então, saiu-se com uma resposta que se tornaria clássica: "Na nossa situação atual, o governo não é a solução. O governo é o problema".
A presidente Dilma, claro, jamais dirá isso, mas obviamente admitiu a incapacidade ao menos parcial do Estado quando lançou o amplo programa de concessões de obras de infraestrutura à iniciativa privada.
Se o governo tivesse dinheiro e expertise para fazer os investimentos necessários, não precisaria entregar estradas, portos, aeroportos e ferrovias ao capital privado. Reparem que a presidente Dilma  tentou turbinar os investimentos públicos. E só partiu para as concessões diante dos atrasos e da sequência de corrupção em obras importantes .
Ou seja, não foi por convicção, mas por necessidade. Ela não admite que o governo é o problema e que a infraestrutura brasileira falha por incapacidade do Estado. Ao contrário, ainda acredita que o governo pode tudo, mesmo que no momento, dadas as circunstâncias, seja preciso chamar os capitais privados.
O resultado disso é a "concessão envergonhada". Abre-se o negócio ao investidor privado, mas o governo está ali ao lado, financiando a juros de compadre, entrando de sócio, dando garantias de receita e prometendo fazer parte das obras.
Ora, dirão: qual empreiteira recusaria um negócio desses? Especialmente neste lado do mundo, a América Latina, tão viciado no capitalismo de amigos - esse sistema em que um bom lobby rende mais que ganhos de produtividade.
Por isso, foi chocante quando nenhuma empresa apresentou propostas no leilão de concessão da rodovia BR 262. A obra era considerada um "filé mignon".
O governo desconfia de alguma ação política, uma articulação da oposição, inclusive de investidores, para desmoralizar o programa. Não cola. Por mais militante que seja, nenhum empresário joga dinheiro fora. 
Logo, o pessoal não achou que o negócio era bom, mesmo com todo o apoio oferecido pelo governo. Em resumo, não achou que o governo pudesse ser a solução para os problemas.
Quais problemas? Tudo poderia ser resumido numa palavra, insegurança. Regulatória: o governo Dilma tem mudado tanto as regras, em tantos setores importantes, que não há como acreditar que as normas regendo as concessões serão mantidas pelos 30 anos do negócio.  
Insegurança jurídica: as possíveis restrições à cobrança de pedágio, a única fonte de renda do empreendimento. Políticos e governantes brasileiros não gostaram de pedágio - mais ainda, não gostam de cobrar nada diretamente do usuário. Há na cultura local uma queda pela boca livre, reforçada pelas recentes manifestações.
Não é de graça, claro. Quando uma estrada federal em Goiás não é pedagiada, ela termina paga pelo morador de Rondônia quando compra uma cerveja e um maço de cigarros. Mas é um pagamento, digamos, quase invisível, o imposto está embutido no preço. Já no pedágio, o usuário morre com seus reais cada vez que passa ali. É mais justo que só o usuário  pague pela facilidade que utiliza, mas, reparem, praticamente todos os governantes cancelaram reajustes de tarifas e pedágios depois das manifestações.
Diante desses óbvios obstáculos ao programa de concessões, o que fez o governo Dilma? Respondeu ao investidor privado:  você cobra um pedágio baratinho que a gente faz o resto. 
A garantia somos nós, disse o governo.
Ora, o risco está nessa garantia, pensaram os empresários. Não disseram, tanto que o governo contava com o sucesso do leilão. Mas pensaram exatamente isso: eu entro num negócio cuja receita é o pedágio, mas eu tenho de cobrar bem baratinho e só posso cobrar depois que o governo fizer a parte dele nas obras e garantir nos tribunais e nos meios políticos a viabilidade da cobrança; e também não posso ganhar dinheiro além do limite fixado pelo governo.
Resumindo: os obstáculos aos investimentos privados estão no ambiente de negócio ruim colocado pelo setor público. Em vez de mudar o ambiente para torná-lo mais amigável às concessões, o governo diz "deixa comigo". O problema se apresenta como solução.
E por que saem alguns negócios? Porque muitos investidores acreditam que, enfim, a gente vai conversando lá em Brasília. 
Não é assim que se vai turbinar os investimentos.
A frase lá de cima? Ronald Reagan.